Crédito: Shutterstock | Fazenda de grãos no Mato Grosso

As terras devem ganhar mais espaço na estratégia da Vinci Compass em 2026. Com R$ 900 milhões sob gestão no agronegócio (eram R$ 700 milhões no fim de 2024), a gestora vê amplo espaço para crescer em transações envolvendo ativos imobiliários ligados ao campo.

Assim como outras casas, a Vinci deu os primeiros passos nessa estratégia com devedores em dificuldades dentro dos próprios fundos. A gestora criou um veículo, no fim do ano, para absorver o CRA do produtor Heliomar Martins — que ocupava 10% do VICA11, o fundo listado da casa. O título tem alienação fiduciária de terras.

Olhando adiante, no entanto, o apetite vai bem além desse tipo de negócio. Ainda no fim do ano passado, a Vinci protocolou na CVM um fundo de terras. Os detalhes ainda não são públicos, mas uma conversa com o gestor André Ito dá uma pista de onde está a cabeça da gestora quando o assunto é investir em terras agrícolas.

“Não vejo outro país que tenha a oportunidade que o Brasil tem. O país passou por anos ruins no agro e ainda vai ter um 2026 desafiador. Mas no longo prazo o mundo vai continuar demandando alimento e não tem outro lugar para desenvolver áreas com o volume daqui, nem com a capacidade técnica”, diz Ito, head de crédito agro da Vinci, ao The AgriBiz.

A Vinci vê a estratégia de terras como uma oportunidade bifurcada: de um lado, compra e venda de terras, ganhando dinheiro na apreciação dos imóveis; do outro, operações de sale e leaseback.

“Tem casas que preferem operar tudo dentro do mesmo fundo, como um hedge fund. Nós preferimos segregar em fundos distintos. É como se fosse ter um fundo de renda de terra e um de tijolo de terra. É mais adequado ao apetite do nosso investidor, que quer segregar cada risco”, explica Ito.

Do lado do ativo, as operações na mira da gestora têm um intervalo de R$ 50 milhões a R$ 150 milhões. O passivo é formado por três perfis de investidores: single family offices (grupo que já costumava investir desde os tempo de MAV, gestora comprada pela Vinci); multi family offices, e fundos que não têm estratégia agro e veem na alocação um especialista pra fazer um investimento dentro desse segmento.

Ainda há, no entanto, uma fatia a ser conquistada dentro da alta renda. “Fora do Brasil, quase todo single family office tem exposição a esse tipo de ativo, direta ou indiretamente. No Brasil, essa proporção ainda é muito menor”, destaca Ito.

Comprar terras de produtores em recuperação judicial não é um caminho descartado. “Somos agnósticos. O arcabouço jurídico da recuperação judicial permite adquirir terras via UPI. Nesse nível de conversa, temos interesse”, esclarece Ito. (Glossário: UPI significa Unidade Produtiva Isolada, que, no fim do dia, traduz um conjunto de ativos que pode ser vendido num processo de RJ, livre de dívidas anteriores).

Fora das terras, o perfil de alocação da Vinci em crédito privado no agro segue tendo uma preferência por investir em empresas ou devedores que tenham uma grande quantidade de ativo imobilizado para fazer frente à dívida.

Foi essa preferência, aliás, que resultou em uma exposição maior em açúcar e etanol e produtores de grãos, afastando a gestora de operar risco corporativo de revendas e cooperativas. No portfólio consolidado, 40% estão alocados em usinas e outros 40% em produtores rurais.