
Colheita e produtividade em níveis recorde animariam qualquer produtor de soja em situações normais. O problema é que, nesta safra 2025/26, os preços continuam sendo um detrator, com margens que devem continuar comprimidas.
Na primeira estimativa antes do tradicional Rally da Safra, a Agroconsult destacou que apesar da oferta excepcional, será mais um ano difícil para o produtor.
“Mesmo com os preços em queda nos últimos dois ou três anos, a gente continuou crescendo a área plantada, embora o ritmo do aumento tenha desacelerado. É contraintuitivo”, disse André Debastiani, sócio-diretor da Agroconsult e coordenador do Rally da Safra.
Segundo Debastiani, o balanço global segue superofertado: “É o quarto ano seguido em que o mundo mais produz soja do que consome. E isso tem reflexo direto nos preços, jogando para baixo”, complementou.
A questão vai além do Brasil. Ao que tudo indica, ainda não haverá um choque oferta capaz de equilibrar o balanço global. “Na Argentina está se desenhando uma ótima safra, e as do Paraguai e dos EUA também devem ser muito boas. Então, do lado da oferta, é uma pressão negativa em termos de preços”, disse ele.
A Agroconsult estima um aumento de 2,1% na plantio da soja, para um recorde de 48,8 milhões de hectares. Na visão de Debastiani, o que explica a aparente contradição entre cotações e margens apertadas e crescimento da área é a lógica imobiliária por trás de boa parte das expansões, com a terra plantada valendo mais do que as pastagens que elas têm substituído.
“Pensando em quanto custa abrir terra para produzir soja versus a margem atual da atividade, o esperado seria um crescimento zero, a gente deveria parar de crescer. Mas não é bem assim que funciona, tem muita gente que faz expansão pensando na valorização da terra no longo prazo”.
Demanda não muda o ponteiro
A consultoria espera um aumento da exportação brasileira de soja em 2026, de 108,7 milhões de toneladas para 112 milhões de toneladas. A Agroconsult também estima que as compras chinesas, que totalizaram cerca de 75% do total exportado pelo Brasil no ano passado, possam aumentar — como efeito da guerra comercial promovida pelos Estados Unidos.
Mesmo assim, esses fatores combinados não devem ser suficientes para mudar o panorama de aperto no setor no ano que se inicia.
“A China comprou 112 milhões de toneladas do exterior na última safra, e deve comprar o mesmo volume neste ano. Ainda não sabemos quanto virá do Brasil, mas tendo a concordar que esse vetor não muda o jogo. Até porque boa parte das compras que a China vem negociando são para reservas governamentais. Está indo muito pouco para as esmagadoras”.=
Segundo ele, o que poderia fazer a cotação da soja na bolsa de Chicago subir seriam notícias de que os chineses vão comprar mais do que os 112 milhões de toneladas. “Este seria um dos poucos fatores altistas do ponto de vista de fundamentos de mercado, mas acho pouco provável ver a China se lambuzando com soja americana”, diz Debastiani.
O ritmo atrasado das vendas antecipadas é outro agravante. “Uma das preocupações que a gente tem nessa safra é que o percentual que já foi comercializado é o menor que já tivemos na história para essa etapa da colheita, com apenas cerca de um terço da produção comercializada. No ano passado, nessa altura tínhamos 105 milhões de toneladas ainda para vender, e, neste ano, são 120 milhões. Isso faz ainda mais pressão negativa na precificação.”
Outros dois importantes vetores de demanda, o fim da moratória da soja e o mandato do B16, que aumenta a mistura obrigatória do biodiesel no diesel de 15% para 16%, se mostram incapazes de mudar o jogo, na visão dele.
“O fim da moratória da soja é um incentivo a mais, mas não deve ser o suficiente para gerar reflexos nas margens. E, com base nas conversas que mantivemos com a Abiove, não acreditamos no B16 entrando em vigor em março, como planejado, por causa do atraso nos testes. Talvez em maio ou junho.”
Por outro lado, ele lembra que teremos eleição presidencial em 2026, o que pode influenciar o câmbio, desvalorizando o real e tornando as compras do Brasil mais atrativas. “Ano eleitoral traz mais volatilidade. Se tiver um rally de câmbio, isso pode dar suporte para preços mais altos no País.”