Sede da Vitalforce, em Barretos (SP)
Sede da Vitalforce, em Barretos (SP); companhia vê crescimento de 40% na receita em 2025/26, com as algas representando até 2% do total em 2029

As algas marinhas sobreviveram a bilhões de anos sob estresses extremos, como frio, altas profundidades e radiação. Com isso, criaram mecanismos bioquímicos para sobreviver que têm sido cada vez mais utilizados na agricultura, inclusive no Brasil.

Agora, uma empresa paulista está prestes a lançar um biofertilizante reunindo quatro algas marinhas de uma vez — uma das pioneiras incursões do tipo, uma vez que a maioria dos produtos baseados em algas já disponíveis usam uma ou outra espécie.

Uma vez aplicados no solo ou nas plantas, as algas têm papel bioestimulante, promovendo crescimento, tornando as plantas mais resistentes e reduzindo emissões de gases causadores do efeito estufa. Por isso, vêm sendo usados lado a lado com fertilizantes e defensivos químicos ou biológicos, potencializando seus efeitos.

Mas por que misturar algas? “Para cobrir o máximo possível de problemas que podem ocorrer no campo e causar quedas de produtividade, principalmente diante de um clima tão volátil”, explica Romero Bizare, engenheiro químico da Vitalforce.

“Hoje já há produtos à base de algas, alguns muito consolidados, por sinal. Mas a gente sentia falta de algo que fosse um pouco além”, ele completa.

O blend da Vitalforce integra quatro algas: ascophyllum nodosum, marrom de águas frias do Atlântico Norte, associada ao estímulo radicular e à tolerância ao estresse hídrico; kappaphycus alvarezii, vermelha, cultivada no Brasil e rica em polissacarídeos estruturais; durvillaea antarctica, típica de mares agitados do Cone Sul, ligada à robustez e à resiliência física das plantas; e ecklonia maxima, marrom da África do Sul adaptada à baixa luminosidade, relacionada à divisão celular e ao crescimento.

Chamado Resilimax, o fertilizante biológico já foi registrado e está em fase final de testes lado a lado junto a produtores parceiros. O plano é lançar no mercado em fevereiro.

Bizare explica que o desenvolvimento durou menos de um ano e se deu em conjunto com o pesquisador e consultor Fernando Warpechowski, especializado em fisiologia de plantas — mais especificamente, no uso de bioestimulantes vegetais hormonais.

O produto tem aplicação por pulverização. E, como o nome denota, o propósito é maximizar a resiliência das plantas aos estresses bióticos — causados por microrganismos — e principalmente aos abióticos, como estiagens e cheias.

Para ele, o diferencial do produto frente a outros à base de algas é a indução de resistência.

“Embora não seja um biodefensivo, uma planta mais resistente e bem nutrida está mais condicionada a suportar pragas. É como um ser humano se alimentando bem, fazendo exercícios e bebendo muita água: vai ficar menos suscetível a uma gripe.”

Segundo Bizare, o potencial das quatro algas reunidas se amplifica no contexto de mudanças climáticas.

“Nossa intenção é cobrir o máximo possível dos estresses no campo, principalmente em tempos de clima tão volátil. Antes, sabíamos os meses em que choveria. Mas no ano passado vimos no Mato Grosso, por exemplo, o plantio da soja com atraso, com produtores perdendo o timing por conta de seca. Por isso, aceleramos essa pesquisa.”

Dos fungos às algas

As algas são matéria-prima nova para a Vitalforce, que até então criava bioinsumos baseados em fungos, como o trichoderma, e em bactérias, como a bacillus subtilis.

A novidade vem fortalecer uma estratégia que tenta elevar o status dos bioinsumos junto à clientela de produtores: de um luxo em caso de sobra de verba para a primeira opção de manejo.

A Vitalforce não divulga o faturamento, mas diz que o novo produto é o protagonista de um guideline que projeta um crescimento de 40% na receita no ciclo 2025/26, com o flanco de algas representando até 2% da receita até 2029.

Para tentar materializar os cenários-alvo, a empresa vem destinando 20% da verba de capex em pesquisa e reforço da capacidade industrial.

Outro vetor de crescimento é o braço de óleos minerais para uso agrícola que a empresa passou a ter após ser adquirida, em 2023, pelo Grupo Lwart, um player forte no rerrefino de óleo mineral.

De acordo com a Vitalforce, o negócio agregou governança e deu fôlego financeiro, permitindo modernizar a planta de fermentação sólida, voltada à produção de fungos, na sede industrial em Barretos (SP).

Até aqui, a empresa tem atuação concentrada na soja, que responde por cerca de 60% do negócio. Na sequência aparecem o milho, com 20%, e o café, com 10%.

No embalo do Resilimax, a ideia é aumentar o share de mercado na cana e no algodão em 2026.

Diversas culturas

Bizare explica que as culturas priorizadas na criação do biofertilizante de algas foram soja, milho, algodão e café. Mas é possível ajustar a fórmula para outras lavouras, ele diz, e a dosagem pode ser ponderada de acordo com as condições ambientais de destino.

“Se um solo passou por um processo severo de erosão ou de chuvas, posso modular a dose.”

Regionalmente, a empresa está presente em 16 Estados, mas tem mais força em algumas zonas de atuação: Espírito Santo (por conta do café robusta), Mato Grosso, Minas Gerais, Rondônia, Goiás e São Paulo, além de Uruguai e Paraguai no exterior.

Segundo o engenheiro químico, a empresa tem dedicado especial atenção ao suporte técnico, que, embora não tenha peso direto no faturamento, é essencial para uma maior adesão ao segmento.

“O mercado de biológicos ainda é um bebê perto dos fertilizantes. A aceitação tem percalços, e estar próximo do produtor, compartilhando conhecimento, auxilia.”