Fábrica de abate e processamento de suínos da MBRF em Toledo é a segunda maior da empresa no Brasil | Crédito: Divulgação
Unidade de abate e processamento de suínos da MBRF em Toledo é a maior da empresa no Brasil | Crédito: Divulgação

TOLEDO (PR) — Numa noite de quarta-feira, um homem magro e de chapéu circula entre as mesas de um restaurante em Toledo, no oeste paranaense. Cumprimenta os clientes, sempre com uma caneca de chope na mão — e pronto para oferecer outra a quem está nas mesas. Enquanto isso, espetos de carne passam num ritmo frenético, com garçons atenciosos servindo porções generosas a cada volta.

O estabelecimento é o Boteco do Mosquito, uma rara unanimidade entre as recomendações de locais para quem visita Toledo — especialmente para quem chega no município paranaense pela primeira vez. Mosquito é, na certidão de nascimento, Valdir Wilhelms, o simpático proprietário a caminhar entre as mesas do restaurante.

O empresário é quase uma celebridade — ou pelo menos se comporta como uma. Além da fama na cidade, fala com frequência em lives no Instagram, rede social em que reúne um séquito de mais de 300 mil seguidores. No YouTube, são mais 23,5 mil.

O tom da conversa segue o jeito expansivo do contato presencial, com convites para visitar a churrascaria, estabelecida no Jardim Santa Maria há quase uma década e meia.

O marketing, ao que tudo indica, deu certo. Por dia, são servidas mais de 300 refeições no local, chegando a duas mil no domingo, o dia de pico, em que o restaurante funciona o dia inteiro. Durante a semana, o estabelecimento abre para o jantar às quartas e quintas-feiras.

“Esses dias veio para cá um grupo de 18 pessoas, de outro estado, só para comer no boteco do Mosquito. Fiquei bastante surpreso. Fiz várias viagens para conseguir levar todo mundo até lá”, conta um motorista de aplicativo.

Pela mesa passam os tradicionais cortes nobres de carne bovina e, é claro, os de carne suína, como a costela. Em alguns sábados, o porco à paraguaia também é servido. Todo domingo tem Porco no Rolete — o prato que é a assinatura de Toledo.

Se depois do churrasco der vontade de comer um docinho, uma boa pedida é a doceria Dom Docciê, no centro da cidade. Tão simpática quanto Mosquito é a proprietária Ana Paula Rosa, que deixou a cozinha de grandes hotéis para empreender, há três anos.

“É um período de muito aprendizado, crescimento e de trabalho duro, não só meu, mas de toda a família”, diz Rosa.

Esse clima de família (e de festa) domina a cidade pelo menos uma vez por ano — é claro, tendo o porco como atração principal. Todo ano, é realizada a Festa Nacional do Porco no Rolete, no Clube de Caça e Pesca de Toledo. Na última edição, em setembro, foram preparados cerca de 300 porcos para um público de cerca de 15 mil pessoas.

A tradição teve início em 1974, reflexo de uma cidade que cresceu e se desenvolveu apoiada na produção de carne suína.

Hoje, Toledo reúne o maior rebanho suíno do Brasil, com mais de 950 mil cabeças — são quase seis suínos por habitante. O segundo colocado, para referência, é a cidade de Uberlândia (MG) com quase 624 mil cabeças, segundo o IBGE.

O agronegócio gera 25 mil empregos em Toledo, ou 37% dos empregos da cidade (considerando agroindústrias, cooperativas, fábricas de ração e transportes).

“Se você me perguntar por que Toledo é tão diferente de outras cidades, eu diria que o que fez a diferença, lá atrás, foi a colonização”, diz Luiz Carlos Bombardelli, secretário de Agricultura de Toledo.

Por que Toledo é tão forte em suínos?

A tal colonização começou ainda nos anos 1940, com a marcha para o Oeste, um movimento da era Vargas que tinha o objetivo de desafogar a superpopulação do Rio Grande do Sul na época.

A Maripá (Madeireira Paraná) foi a responsável por fazer a colonização, dividindo o terreno que originalmente era a Fazenda Britânia (e que inclui o que hoje é Toledo) em lotes de 25 hectares.

Os primeiros a chegar foram moradores da cidade de São Marcos, no Rio Grande do Sul — que derrubaram a mata e começaram a trabalhar esses lotes.

Pelo fato de as famílias serem principalmente imigrantes alemães e italianos, já era um hábito entre elas criar suínos. Tanto é que se instalou ali, ainda nos anos 1950, o frigorífico Pioneiro, uma espécie de cooperativa local.

O ritmo de produção ganhou fôlego a partir da chegada da Sadia à região, comprando o frigorífico Pioneiro em 1964.

“A Sadia já tinha nuggets, avião, sede em São Paulo. Viu que a produção estava organizada aqui e resolveu se estabelecer aqui também. Ainda nos anos 1960, a BR 277 ficou pronta, o que acabou com o isolamento da região e ajudou a trazer a soja ao longo dos anos 1970”, explica Felipe de Andrade Sanches, historiador do Museu Willy Barth — nome que homenageia um dos diretores da Maripá e o terceiro prefeito da cidade.

Mais do que um destaque no desenvolvimento de Toledo, a planta é um marco também para a MBRF, dona da Sadia. A fábrica instalada no município emprega 7 mil pessoas, sendo a segunda maior (tanto em volume produzido como em número de empregados) da empresa, uma das maiores fabricantes de alimentos do mundo.

Por dia, são abatidos 7,5 mil suínos na planta de Toledo, além de serem produzidas 395 toneladas de industrializados diariamente — ali está instalada a maior presuntaria da MBRF.

No processo industrial, nota-se a presença de diferentes robôs, embora a maior parte do trabalho ainda seja feita por pessoas. Entre os colaboradores, presença de imigrantes se destaca.

“Cerca de 1 mil funcionários da planta são estrangeiros, pelo menos 60% deles sendo haitianos. Os demais são principalmente venezuelanos”, explica Luciano Micheletto, gerente industrial da fábrica.

Os criadores de suínos

Ao mesmo tempo em que desenvolve mão de obra para a operação industrial, o frigorífico também ajudou a desenvolver, ao longo do tempo, a quantidade de granjeiros integrados que prestam serviço para a MBRF.

A maior parte dos mais de 2 mil produtores de suínos de Toledo são integrados da MBRF. Na cidade, a dona da Sadia é o grande destaque, mas nos municípios vizinhos há ainda a presença de outros frigoríficos, ligados a cooperativas como Primato, Copacol e LAR.

Nesses mais de 60 anos, o produtor aprendeu muito, mas ainda tem alguns percalços a superar, como mostra Edson Pacheco, suinocultor e gerente regional da Assuinoeste, associação que reúne 270 produtores (a maior parte de Toledo).

“O produtor ainda não sabe qual é o custo de produção dele. Estamos tentando adaptar a ferramenta Custo Fácil, da Embrapa, para tentar estimular suinocultores a fazer essa conta”, explica Pacheco.

A sucessão familiar é outra questão que preocupa — não só a associação, mas o município, já que a maior parte dos suinocultores tem entre 50 e 60 anos. Especialmente em momentos de baixa de preços, em que a segunda geração fica menos estimulada a tocar o barco. Prova disso é a queda brusca no plantel de 2021 a 2023, caindo 20%.

A aposta no biometano

Enfrentar esse cenário, na visão de quem lida de perto com os produtores, passa por rentabilidade. Em busca disso, a associação correu atrás de parcerias que possibilitem a fabricação de biometano, um ponto que também está nos planos do município. Dessa forma, produtores se livram do passivo ambiental (um problema na região, impedindo aumentos de área) e garantem uma renda extra.

Um desses projetos é o Toledo em Movimento, uma parceria entre a associação e o Sintratol (o sindicato dos transportadores de Toledo). Os veículos dos sindicalizados rodam, em média, 200 quilômetros por dia, na região.

Dois desses veículos foram transformados em híbridos, a diesel e biometano. “Isso trouxe uma redução em custo para eles em 30%. Então, a demanda existe, mas falta o biometano na região. Estamos incentivando produtores para terem uma renda adicional”, explica Pacheco.

Ainda de olho na atratividade ao suinocultor, recentemente, o município aprovou uma política pública ligada ao biometano.

“Somos o primeiro município do Brasil a criar uma política pública de biometano. Ela vem incentivar os produtores com auxílio, desde terraplanagem, maquinário, fazer com que o município use biometano na sua frota. Abre espaço para tirar alguns impostos municipais do biometano como o ISS”, explica Bombardelli.