Embaixada Solidária, em Toledo

TOLEDO (PR) — “Bienvenida mi reina.” A frase — que em português significa “bem-vinda, minha rainha” — acompanha um buquê de flores nas mãos de uma mulher jovem, que aguarda ansiosa na fila do desembarque em Cascavel, município do oeste do Paraná.

Nos avisos do aeroporto, o sotaque latino acompanha os avisos de horários de voo e bagagens. A menos de uma hora de carro dali, na fábrica da MBRF em Toledo, avisos estão escritos em português, francês e no idioma crioulo.

Por onde quer que se olhe nas proximidades de Toledo, a presença dos imigrantes é inevitável. Não é incomum encontrar um motorista de aplicativo estrangeiro, ou mesmo ouvir pessoas falando em espanhol durante uma caminhada.

Nessa salada típica de Brasil, o que falta contar é a complexa engenharia que permite a essas pessoas se estabelecer ali. Dados de 2022 mostram que pelo menos 3 mil pessoas de outras nacionalidades viviam na cidade — um movimento que aumenta a cada dia, num intenso fluxo migratório.

O marco zero da vida de quem chega (principalmente) de fora do Brasil não está em nenhum órgão público ou empresa, mas sim na organização sem fins lucrativos Embaixada Solidária. Uma casa fundada há onze anos pelas mãos da jornalista Edna Nunes.

Tudo começou quando a jornalista ainda exercia a profissão em redações em Cascavel e, no trajeto de uma hora de Toledo até lá, passou a conversar com mulheres haitianas que trançavam cabelos na rodovia como forma de sustento.

Numa dessas idas e vindas, Nunes fez amizade com Júlia Cristina, mulher haitiana (nasceu Mive-Kerline Emmanuel Leopold) que lhe ensinava francês. Um belo dia, Júlia apareceu tristíssima porque uma das clientes havia desmarcado e o dinheiro do serviço faria falta.

“Tentei resolver da forma mais rápida possível, tirando um dinheiro da carteira, mas ela não aceitou”, conta Nunes. “Ela me deu um choque. Disse assim: ‘eu não te fiz nada de bom, não posso pegar seu dinheiro.’ Essa ética me marcou muito. Em troca, ela propôs trançar meu cabelo e eu aceitei.”

Quatro horas de trança depois, deu tempo de a jornalista conhecer a casa em que Júlia morava junto com outras mulheres. Uma casa minúscula, em que quase todas estavam grávidas, vítimas da violência no caminho até o Brasil. Veio daí a vontade de ajudar.

De um chá de bebê gigante, Nunes passou para as tentativas de colocar essas mulheres no mercado de trabalho (um esforço de pelo menos meio ano) e de matricular as crianças que estavam com elas em creches.

A ideia era formar um projeto que durasse dois meses. “Eu não achei que um mês depois eu teria mais de cem mulheres para atender. A coisa foi se multiplicando”, explica Nunes.

A partir desse momento, a rede de família e amigos passou a não dar mais conta, sozinha, do apoio ao projeto. Foi então que a fundadora começou a firmar convênios com universidades da região, em busca de voluntários para atividades como tradução, nutrição e principalmente para a parte jurídica — já que a maior parte das pessoas chega sem documentação.

Os desafios

Nesse esforço, a Embaixada Solidária conseguiu reduzir de 120 dias para cerca de 14 dias o prazo para um imigrante conseguir tirar os primeiros documentos no Brasil, um projeto reconhecido recentemente pela premiação Luiz Gama, a maior em direitos humanos do País.

Ainda assim, trata-se de um resultado frágil: quem viabiliza essa redução é um núcleo de práticas jurídicas de uma das universidades conveniadas. Nas férias da universidade, o jeito é dar uma solução emergencial.

“Nós fomos atrás da FIEP para auxiliar com essa tarefa porque, senão, essa cadeia toda iria colapsar, chegando inclusive à indústria. Eles vão nos ajudar com a equipe jurídica para que isso não despenque. Agora, temos de ir às outras cidades treinar outras pessoas para que consigam fazer o mesmo”, explica Nunes.

Sem um mantenedor fixo, a organização consegue realizar esse trabalho principalmente por causa de doações (roupas, alimentos, móveis etc.) e de um bazar, em que vende objetos variados. Ocasionalmente, a ONG também participa de editais, com destaque para Cargill e MBRF, além de parceria com o Rotary Club.

“Todo o investimento feito aqui são editais, projetos, para que a gente possa continuar. Nós falamos isso com uma certa tristeza, porque é uma política pública feita hoje de forma privada. Falamos com dor de não ter um investimento que pelo menos garanta um corpo de colaboradores”, conta Nunes. São ao todo dois funcionários, num corpo de pelo menos 40 pessoas (o restante são voluntários).

Esse combo traz o dinheiro necessário para ajudar quem chega ali, numa média de 300 novos atendimentos por mês. Para conseguir ajudar a essas pessoas, a Embaixada Solidária levanta, em média, R$ 70 mil por mês.

“Terminou nosso dinheirinho, a gente fecha as portas, e fecha com uma dor danada, porque às vezes eu fecho com mães lá fora, com pessoas querendo trabalhar na indústria e não posso atender porque não tenho mais recursos, entende?”, explica Nunes. “Tem entidade para quem R$ 100 mil não é nada. Para nós, dobra nosso atendimento”.

O dinheiro é usado para atividades que vão do frete dos móveis às novas casas de quem chega por ali até os custos jurídicos.

Mantém, também, os mais de 30 programas de capacitação colocados em prática pela entidade, como o Perda Zero (focado em prevenir o desperdício de alimentos, repassando mais de 20 toneladas por mês), o Mundo em Retalhos (um projeto de moda sustentável a partir da doação de tecidos) e, mais recentemente, o Vila Mundo, um projeto que vai transformar uma casa de prostituição em um refúgio para pequenos grupos de imigrantes.

“Nós temos também um programa chamado Um Lugar para Recomeçar, para quem chega e não é absorvido pela indústria ou pelo comércio. Por exemplo, chega uma senhora de 70 anos, confeiteira. Nós vamos atrás de batedeira e liquidificador para ela começar a fazer algo por conta própria”, explica Nunes.

O passado e o futuro

De 2014 para cá, o projeto já mobilizou mais de 11 mil residências e empregou 6 mil imigrantes principalmente nas indústrias nos arredores de Toledo — um polo de produção de proteína animal, principalmente de suínos. Já foram atendidos imigrantes de 47 países, em todos os estados brasileiros, além de migrantes do Paraná e do Maranhão.

Conseguir fazer essa ponte para a empregabilidade levou tempo. O esforço começou ainda em 2014, sob o viés social, mas ganhou força no pós-pandemia, diante da escassez mais evidente de mão de obra nas fábricas.

“É nesse momento que a indústria abre as portas para a Embaixada e diz ‘vocês sabem traduzir?’ Nós dizemos que sim. ‘Vocês conseguem convencê-los a tomar vacina?’ Sim. E a partir disso começamos a colaborar de forma mais ativa. Tínhamos na época mais ou menos 3 mil imigrantes em Toledo, de pelo menos 12 países diferentes”, detalha Nunes.

Esse ritmo de chegada (e de vagas disponíveis) não para. Em 2019, conta a fundadora, uma iniciativa chamada Oeste em Desenvolvimento, em parceria com a FIEP e universidades locais, mostrou que havia 12 mil vagas disponíveis na indústria — um número que já subiu para 27 mil.

“Se todos os imigrantes pegarem suas malas e voltarem para os países de origem, fecha o terceiro turno de toda e qualquer cooperativa até 300 metros fora do Paraná. Nós temos empresas em Toledo que estão com 48% da mão de obra migratória, sem contar os brasileiros em fluxo, só internacional”, explica Nunes.

De olho no futuro, a expectativa da fundadora é conseguir costurar acordos maiores, mais abrangentes. Levar a profissionalização para os polos de atendimento, dada a escala que o projeto tomou.

“Agora nós precisamos escalar. Nossa cozinha tem de ser replicável, nosso modelo jurídico tem que ser replicável e principalmente nós precisamos ser sustentáveis financeiramente. Porque agora nós não cabemos mais dentro de uma política pública, agora a gente está em outro âmbito, fomentando com a sociedade civil, em um espaço que nos dá muita liberdade de construção das políticas”, finaliza Nunes.