
Os preços do açúcar estão nas mínimas das últimas décadas e já espremem os produtores de cana, impactando a renovação do canavial. Na visão do Morgan Stanley, esse cenário de preços baixos deve persistir pelo menos até a safra 2027/28.
A aparente ironia é que, mesmo sem uma recuperação nos preços da commodity no curto prazo, o banco vê um baita potencial nos papéis da São Martinho — que estão no patamar mais baixo da década.
Em um extenso relatório, as analistas Julia Rizzo e Julia Habermann destrincham as perspectivas globais para a produção de açúcar e elencam os papéis favoritos na bolsa brasileira. Nessa análise, a São Martinho recebeu um upgrade para “compra”, enquanto a Adecoagro permanece em “neutro”.
Apesar da elevação na recomendação, a equipe rebaixou o preço-alvo em 27% para a ação da São Martinho, chegando a R$ 22. A mudança reflete os ajustes nas estimativas de preços em etanol e açúcar, que devem levar a margem da companhia para os menores níveis da década.
Mesmo com a redução, o novo preço-alvo implica um upside de mais de 50% em relação ao fechamento desta quinta-feira.
O cenário é duro, mas as analistas defendem que a companhia está “subavaliada e prestes a ter uma mudança”. Para dar uma dimensão do pessimismo do mercado em relação ao papel, elas destacam que, hoje, a empresa é negociada abaixo do custo de renovação do canavial.
Tamanho desconto está ligado, segundo as analistas, a uma análise equivocada dos investidores. Nos preços atuais, o mercado atribui um valor de aproximadamente US$ 60 para cada tonelada de capacidade produtiva da empresa.
“É um múltiplo em linha com fusões e aquisições recentes, mas que desconsidera os diferenciais de qualidade, escala e eficiência operacional da São Martinho. O valuation atual parece não atribuir valor para o negócio de etanol de milho”, escreve a dupla.
Milho, o grande diferencial
Nas estimativas da equipe, o negócio de etanol de milho deve gerar cerca de US$ 400 milhões em Ebitda na safra 2025/26 para a São Martinho, bem acima da estimativa inicial de US$ 300 milhões e acima do consenso.
“Esse potencial positivo é impulsionado por preços mais altos do que o esperado na entressafra brasileira, além dos baixos níveis de estoque, que podem trazer uma surpresa positiva aos resultados e servir como um catalisador para o mercado”, destacam.
O potencial do etanol de milho é quase um divisor de águas para a forma como as analistas veem outros papéis dentro do setor. Enquanto a São Martinho se tornou a principal escolha dentro do setor, a Adecoagro, por exemplo, ainda é vista com mais cautela.
As analistas mantiveram o preço-alvo de US$ 9,50 e a recomendação “neutra” para os papéis. “Embora nós vejamos os benefícios da diversificação e os potenciais ganhos do gás de Vaca Muerta, na Argentina, para a Profertil, acreditamos que a incerteza em relação aos resultados no período de baixa do ciclo pode impedir que a ação tenha um desempenho superior ao do mercado no curto e médio prazo”, escrevem.
No final do ano passado, a Adecoagro aumentou a sua participação na Profertil, maior produtora de ureia granulada da América do Sul, para 90%.
Mix mais alcooleiro?
Na visão das analistas, o cenário de pressão sobre os preços do açúcar deve fazer com que a safra 2026/27 comece mais alcooleira no Brasil, mesmo com uma disponibilidade de cana maior, dados os prêmios mais atrativos nesse momento do ano.
Caso esse cenário realmente se confirme, o País deve ter um mix de 45% de açúcar e 54,3% de etanol, o que faria com que a produção do adoçante somasse 38 milhões de toneladas (ante 41 milhões na safra anterior).
Com isso, a produção de etanol de cana teria um aumento de 4 bilhões de litros em relação à safra passada, somando 26,9 bilhões de litros no Centro-Sul.
Não deve ser um prêmio eterno, advertem as analistas. Somando o etanol de cana com o de milho, o mercado deve ter uma produção de 37,8 bilhões de litros — o que deve trazer os preços para baixo à medida que a safra começar.