
A deterioração dos preços internacionais do açúcar espremeu as margens do fornecedor de cana, inviabilizando o retorno necessário para justificar o investimento na renovação dos canaviais.
Com as contas quase no vermelho — ou já negativas, se o fornecedor estiver alavancado em uma vez —, o produtor dificilmente fará a renovação, o que certamente vai afetar a produtividade do canavial no Centro-Sul a partir da safra 2027/28.
Não se trata de uma crise financeira similar à da cadeia de grãos, mas de um movimento racional de quem faz contas. No atual patamar, o preço do açúcar não remunera o investimento. Além disso, o custo de oportunidade é a Selic a 15% ao ano.
“Na maior parte das vezes, o produtor até poderia fazer a renovação, mas por decisão racional deixa o recurso no CDB, e a área fica um pouco degradada, sem replantio, ou com braquiária”, explicou Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A, ao The AgriBiz.
Usualmente, entre 20% e 25% do canavial precisa ser restaurado a cada ano, com um custo da ordem de R$ 17 mil por hectare.
“Na produtividade média do Centro-Sul, a receita é de R$ 9 mil por hectare. Mas o custo de plantio é de R$ 17 mil. Como renovar com esse gap? Os tratos da cana são mais baratos nos anos subsequentes, perto de R$ 6 mil o hectare, mas é complicado investir agora”, diz Hernandes.
Neste momento, já há uma redução nos tratos culturais. “Os produtores estão tirando o pé e diminuindo adubo e até defensivos”, sustentou José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil).
Para o dirigente, o atraso na renovação dos canaviais é apenas uma questão aritmética, especialmente quando se considera o custo financeiro para tal. “Para pegar recurso em banco, tem que pagar 19% de juros ao ano, algo absurdo em um negócio com rentabilidade de 20%”, justificou.
Além disso, o custo operacional é um problema. “O que está pegando é a combinação de receita menor e custos 23% mais altos que na safra passada, puxados pelos fertilizantes”, acrescentou Nogueira.
A receita também não ajuda
A tendência para os preços do açúcar também não contribui. Países como Índia e Tailândia sinalizam safras positivas, o que pode levar os preços da commodity e, consequente, da cana para algo abaixo dos atuais R$ 140 por tonelada. A julgar pelos contratos futuros de açúcar, o preço da cana sinaliza R$ 133 por tonelada, segundo Hernandes.
Não bastasse isso, o preço do etanol pode cair com a entrada de um volume substancial do biocombustível feito de milho. “Se o preço do etanol sofrer com aumento de oferta, o Consecana pode ficar menor ainda”, ressaltou o sócio da FG/A, em alusão ao indicador que baliza os preços da cana na relação entre usinas e fornecedores.
Um alento seria a elevação da mistura obrigatória de etanol na gasolina, do atual E30 para o E35. “É a saída viável para descarbonizar e melhorar o faturamento. Já foi validada tecnicamente e os motores da frota estão preparados”, defende o CEO da Orplana.
Apesar dos argumentos, essa é uma hipótese improvável de emplacar em ano eleitoral, quando manter o preço dos combustíveis em níveis controlados é crucial para a classe política.
Para o fornecedor de cana, o grande alívio mesmo está nos preços excepcionais dos últimos anos, que ajudaram a acumular gordura para atravessar o momento mais árduo do ciclo.
“No Centro-Sul, o produtor teve dois anos com valores bons e que custearam bem as safras”, ressaltou Nogueira.
O risco fica apenas para os produtores que usaram o boom do açúcar para se alavancar, mas esse é um contingente considerado menor.
“Esse produtor tem hoje uma estrutura de dívida comprometida. Para ele, pagar as despesas financeiras não vai ser possível. Vai ter que renovar dívida, ou mesmo vender uma parte da área para recapitalizar. Voltar uns passos atrás para depois seguir em frente”, avaliou Hernandes, da FG/A.
No médio prazo, os preços do açúcar precisam se recuperar para devolver rentabilidade. “Se não houver até lá um ajuste de preços ou uma queda de custos, o produtor de cana pode enfrentar sérios problemas”, alertou Nogueira.
A beleza do ciclo de commodities é que, com uma piora de produtividade no canavial contratada, uma recuperação dos preços do açúcar também deveria se materializar a partir de 2027.
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No Centro-Sul, o produtor de cana não-usineiro representa 40% da oferta, segundo a estimativa da Orplana.