Raízen perde grau de investimento e assusta investidores

A falta de uma solução clara para o aperto financeiro da Raízen culminou numa cartada emblemática nesta segunda-feira: a empresa perdeu grau de investimento, tanto pela S&P quanto pela Fitch. Agora, o investimento na Raízen é avaliado como grau especulativo pelas três agências de rating — a Moody’s já havia rebaixado a companhia em novembro.

O movimento, apesar de em boa medida antecipado pelo mercado, não deixa de ser emblemático. Trata-se, afinal, de uma das maiores empresas sucroalcooleiras do País, sinônimo de rating “Triple A” até pouco tempo atrás — sendo avaliada agora a “CCC”.

O rebaixamento foi divulgado horas depois de um comunicado ao mercado, da própria companhia, informar acionistas e investidores que estava contratando assessores financeiros para encontrar “opções estratégicas voltadas ao fortalecimento de sua posição de liquidez, à sua estrutura de capital e à sua interação com o mercado”.

O comunicado foi interpretado como um sinal de que a tão aguardada capitalização da companhia e o plano de desinvestimentos estão longe de virar realidade — e, principalmente, reduzir o tamanho da dívida da Raízen, que ultrapassa R$ 50 bilhões. A consequência foi mais um sell-off dos títulos de dívida da maior produtora mundial de açúcar e etanol, tanto no mercado brasileiro como no internacional.

“A contratação de assessores financeiros indica uma alta probabilidade de reestruturação de dívida, com o enfraquecimento de sinais em relação a capitalização e venda de ativos previstos”, diz o comunicado da S&P.

A Fitch apresentou os mesmos argumentos: “A realização do aporte de capital necessário no prazo oportuno é incerta, e a Fitch acredita que a demora na captação de recursos enfraqueceria ainda mais a posição financeira da companhia.”

A agência destacou também que o desempenho operacional da companhia tem sido mais fraco do que o esperado.

Na última sexta-feira, a Raízen divulgou um outro comunicado informando que diversas alternativas estão sendo consideradas para lidar com a estrutura de capital, sem entrar em detalhes. E as incertezas em relação às transações finais que serão realizadas resultaram no rebaixamento, com aumento considerável do risco de perdas dos investidores nos títulos da Raízen.

Para a S&P, a chance de recuperação de créditos é de 65%, enquanto a Fitch vê essa probabilidade entre 25% e 50%. Segundo a agência de notícias Bloomberg, um haircut da dívida é uma das opções avaliadas para salvar a Raízen, que já teria contratado a Alvarez & Marsal para a reestruturação.

Impactos no mercado

As notícias reforçaram o movimento de manada na venda dos títulos da Raízen. No mercado de debêntures incentivadas, um block trade de R$ 290 milhões foi realizado, levando os títulos da Raízen a serem vendidos a 42% do valor de face, apurou The AgriBiz. Dados da Anbima mostram debêntures que chegam a 50% de desconto.

No mercado internacional, o movimento de venda vinha chamando a atenção desde a semana passada — quando a Cosan pré-pagou bonds com cláusula de vencimento cruzado com a Raízen. Analistas interpretaram a operação como um movimento da Cosan, que divide o controle da Raízen com a Shell, de se desvincular da produtora de açúcar sob o ponto de vista de crédito.

Com isso, o valor dos títulos em dólares da companhia caiu praticamente pela metade em uma semana. No Brasil, CRAs da Raízen chegaram a ser negociados com um desconto de aproximadamente 40% em relação ao valor de face.

Ao todo, a Raízen tem R$ 17 bilhões em títulos de dívida local — e quase R$ 25 bilhões em bonds, com base nos últimos dados, de setembro do ano passado. Cerca de 60% dos empréstimos e financiamentos da companhia estão no mercado de capitais.

Quando veem o respiro?

Enquanto o cenário de reestruturação passou a predominar nas expectativas do mercado, a venda das refinarias da Raízen na Argentina voltou às manchetes. Segundo matéria da Bloomberg, a Mercuria estaria perto de fechar a compra dos ativos por US$ 1 bilhão — o que ajuda, mas não resolve todo o problema.

Sem a confirmação de novos negócios, o cenário base das agências de risco é o de uma empresa ainda atolada em dívidas, mas sem um problema de liquidez no curtíssimo prazo.

Em 30 de setembro, a empresa tinha R$ 18,6 bilhões em caixa, além de linhas de crédito rotativo de US$ 1 bilhão e uma dívida a curto prazo de R$ 7,4 bilhões. Apesar de isso indicar uma estrutura de capital administrável no curto prazo, a Fitch acredita que o caixa da companhia seria totalmente consumido em dois anos.

Nas contas da Fitch, a companhia deve ter um Ebitda de R$ 10,9 bilhões em 2026 e de R$ 11 bilhões em 2027. Porém, as despesas financeiras e investimentos devem consumir R$ 9,5 bilhões em 2026 e R$ 7,5 bilhões em 2027 — garantindo, até lá, um fluxo de caixa negativo.

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A Raízen vai divulgar o balanço completo do terceiro trimestre do ano-safra 2025/26 nesta quinta-feira, 12 de fevereiro.