
Enquanto muitos produtores se preocupam com a queda no preço da soja, a BrasilAgro está otimista com a safra 2025/26.
Da porteira para dentro, a companhia espera boa produtividade na soja, no milho e na cana-de-açúcar, que representam 90% de sua operação agrícola. O plantio foi bem-sucedido, no tempo certo, e as condições climáticas têm sido satisfatórias, segundo Gustavo Lopez, diretor financeiro e de RI da BrasilAgro.
“A nova safra foi bem plantada, nas janelas ideais. Dezembro e janeiro tiveram um pouco menos de chuva do que a média, mas ainda em níveis razoáveis no Centro-Oeste, e esperamos um fevereiro um pouco mais chuvoso. Tudo dá a entender que será uma safra muito boa”, disse Lopez nesta quinta-feira a jornalistas.
Além do aguardado crescimento dos volumes devido aos ganhos de produtividade, os resultados da companhia nos próximos trimestres vão refletir também uma estratégia comercial acertada, ressaltou Ana Paula Zerbinati, head de Relações com Investidores.
A BrasilAgro intensificou a venda da soja entre outubro e dezembro do ano passado — cerca de 60% do volume esperado para esta safra já foi vendido, enquanto a média no mercado está em torno de 50%, segundo Zerbinati.
Com isso, a empresa ganhou duas vezes: se beneficiou de um câmbio mais próximo de R$ 6, em vez dos atuais R$ 5,26, e de um preço maior da soja do que o praticado atualmente.
Outra escolha que se provou acertada foi a antecipação das compras de fertilizantes e de defensivos, que devem gerar uma economia entre 6% e 7% na safra atual.
“A relação de troca piorou, e pode piorar mais com o preço da soja caindo. Vendemos um pouco mais, fomos mais agressivos. Aproveitamos a volatilidade do mercado para reduzir custos e melhorar preços, elevando um pouco a margem”, detalhou Lopez.
Em relação à comercialização dos 40% restantes, a ideia é armazenar o máximo possível até o segundo semestre, fugindo da pressão logística na primeira metade do ano.
A ajuda do etanol de milho
O outro eixo que gera otimismo na companhia é o boom do etanol de milho. Segundo Lopez, a proliferação de usinas — particularmente no Centro-Oeste, onde a presença da BrasilAgro é forte — tem gerado dois benefícios.
O primeiro é um aumento da receita, com prêmios na comparação com a exportação ou a venda para fabricantes locais de proteínas, principalmente granjas, que até então eram as únicas alternativas para escoar a produção.
O outro benefício é uma economia no frete, o que tem gerado ganhos ainda mais significativos do que os prêmios.
“Nos últimos dois anos, a chegada das indústrias tem nos ajudado na logística, que deixava a rentabilidade baixa. Agora, elas nos dão a possibilidade de comercializar com prêmio, e ainda temos economia no frete com trajetos encurtados”, disse Lopez.
Segundo ele, o prêmio tem sido de até 10%, enquanto a economia de frete tem ficado em expressivos 20%.
Os ganhos de rentabilidade no milho levaram a BrasilAgro a aumentar a área plantada com o cereal em detrimento do algodão, que tem uma perspectiva negativa para os preços neste momento.
“No algodão, temos mais dúvidas. No início estávamos animados, entendíamos que era uma boa estratégia para valorizar fazendas e depois vender. Mas diminuímos a área, estamos em 100 mil hectares, contra 150 mil hectares no ano passado”, disse Lopez.
O retrato do trimestre
A receita líquida da companhia no trimestre de outubro a dezembro cresceu 25% em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 191 milhões, puxada pela venda de estoques de grãos da safra anterior, que haviam sido carregados de forma estratégica.
“Essa decisão permitiu a captura de melhores níveis de preço ao longo do semestre,
contribuindo positivamente para a receita”, disse o CEO, André Guillaumon, no relatório que acompanha o balanço.
O lucro ficou em R$ 2,5 milhões no período, ante um prejuízo de R$ 19,6 milhões um ano antes. O Ebitda, no entanto, caiu 77%, influenciado principalmente por problemas na operação de cana-de-açúcar.
Na região de Brotas (SP), a empresa encarou uma geada, enquanto o canavial no Maranhão foi afetado por uma queimada.
“Esses eventos nos deixaram com quase 400 mil toneladas a menos de produção na cana. Deveríamos ter ainda um final de safra para produzir, mas acabamos mais cedo a operação por causa dessa perda. E isso impactou muito o resultado”, disse Lopez.
Apesar dos danos, a empresa não acredita em queda na produtividade futura, porque aumentou em 60% os investimentos em replantio nas áreas afetadas.
Já na atividade de compra e venda de fazendas, o mercado continua desfavorável. “Do ponto de vista imobiliário, o que estamos vendo são margens bem apertadas e preços muito pressionados até para arrendamento”, disse Lopez.
Com isso, o negócio imobiliário deve se manter em hibernação, com papel coadjuvante no balanço nos próximos trimestres.
Segundo o diretor financeiro, a perspectiva de queda na taxa Selic — com o mercado apontando para algo próximo de 10,5% em 2027, ante os atuais 15% — pode mudar o cenário.
“A expectativa sobre queda nos juros tem nos levado a revisitar algumas fazendas que pareciam não fazer sentido. É possível que a gente reabra negociações.”