
Vacinado pelo desfecho positivo após a longa negociação do tarifaço de Donald Trump, o governo brasileiro adota cautela e paciência para mais um imbróglio comercial no agronegócio: reverter ou ampliar a cota imposta pela China para a importação de carne bovina.
“Não há motivo para nenhum pânico”, resumiu o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, em entrevista ao The AgriBiz.
No último dia de 2025, o país oriental impôs cotas aos exportadores de carne bovina e uma tarifa de 55% acima de um volume definido por mercado. Ao Brasil coube 1,106 milhão de toneladas em 2026, volume que subiria para 1,128 milhão de toneladas em 2027 e 1,151 milhão de toneladas em 2028.
A cota fica aquém do volume exportado pelo Brasil, que superará 1,5 milhão de toneladas para a China em 2025 e cujas estimativas apontam para o rompimento também neste ano.
A estratégia brasileira para negociar com seu maior cliente do agronegócio passa, segundo Rua, por uma série de procedimentos, desde ações pontuais até “nuances comerciais” e “pequenos detalhes operacionais” no cálculo da cota.
O próprio secretário solicitará aos chineses a criação de um “marco temporal” para o início da cota a partir dos embarques no Brasil. O setor privado estima que 350 mil toneladas de carne bovina estejam em navios que deixaram o país em 2025, mas que chegarão aos portos chineses somente este ano.
Esse volume consumiria 31,6% da cota chinesa para 2026 caso o país considerasse a data de desembarque na contagem. “Vamos pedir que aquilo que já aconteceu, que foi embarcado antes da cota, antes da definição do processo, seja retirado da contagem”, afirmou o secretário.
Outro procedimento a ser incluído nas negociações, já anunciado pelo ministro Carlos Fávaro, é que o Brasil possa utilizar parte das cotas impostas pela China a outros exportadores, que não teriam volume para cumpri-las. É o caso dos Estados Unidos, cuja oferta interna do rebanho é tão restrita a ponto de o país ser um importador cada vez mais relevante de carne.
De posse de todas as informações, Rua prega uma ação “assertiva e viável” nas negociações com a China. Apesar de ter tempo, já que o mercado deve desacelerar pela restrição na oferta brasileira e o eventual rompimento da cota ocorra somente no segundo semestre de 2026, o secretário defende uma solução rápida para o impasse comercial.
“A ideia é que seja o mais rápido possível para termos essas definições. Janeiro já começou e é hora de a gente chegar o mais rápido possível a alguns entendimentos”, afirmou.
Além disso, a operacionalização da cota chinesa precisa de definições. “Temos nuances de como fazer operacionalização, de como será a contagem da cota, a própria questão dos sistemas e uma série de pequenos detalhes da operação do comércio a que a gente tem que atentar para depois não começar errado”.
Outra demanda dos frigoríficos é entender como ficará a divisão da cota de 1,106 milhão de toneladas entre as empresas brasileiras. Segundo Rua, enquanto houver a cota, ela terá de ser resolvida pelas próprias companhias. Essa discussão, na avaliação do governo, cabe à Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), entidade que representa o setor.
“Eles têm que acertar na Abiec como querem fazer essa definição. Não cabe ao governo, a não ser em última instância. Isso é uma definição [das exportadoras] e elas verão a melhor forma de distribuir, baseada em critérios internos”, explicou o secretário.
Novos mercados
Paralelamente, o governo trabalha para reduzir a dependência do mercado chinês. Apesar de representar mais de 50% das exportações brasileiras de carne com volumes crescentes, a participação chinesa já foi até maior, acima de60% em 2022 e 2023.
“A gente já abriu 27 mercados para a carne bovina, sete somente depois do tarifaço, a partir de agosto. É óbvio que a China tem outra magnitude, mas hoje temos mais opções e estamos em uma situação muito melhor do que estávamos se essa medida fosse colocada há dois ou três anos”, disse Rua.
A principal aposta do governo é o mercado japonês. Um acordo para a abertura daquele mercado é costurado há anos e chegou a ser cogitado para ser assinado em março do ano passado, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou o país asiático.
Para Rua, há “uma possibilidade real” de abertura do mercado a partir da auditoria de representantes do Japão, em março deste ano, aos frigoríficos brasileiros. “É um mercado de melhor remuneração de alto valor agregado e estamos otimistas”, disse. “As coisas estão acontecendo. Não há motivo para nenhum pânico”, repetiu o secretário.