Imagem ilustrativa para Ozempic | Crédito: Schutterstock

As novas tendências de saúde, espelhadas pela onda das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Wegovy, já impactam as vendas de carboidratos no varejo, principalmente arroz, farinhas e macarrão.

E a quebra da patente da semaglutida (a molécula presente nessas duas canetas), prevista para 20 de março de 2026 no Brasil e para este ano em outros grandes mercados, deve ampliar significativamente a sua adoção. Com isso, devem se aprofundar os ajustes nos portfólios de varejistas e indústrias alimentícias para priorizar proteínas e fibras alimentares.

A leitura foi apresentada nesta quarta-feira (28) por Belmiro Gomes, CEO do atacarejo Assaí, durante um painel no evento Latin America Investment Conference, promovido pelo UBS, em São Paulo.

“No começo, houve uma curva de redução primeiro do alcoólico, e, depois, dos doces. Mais recentemente, essa queda chegou ao carboidrato, principalmente o primário, como arroz e farinha, que têm experimentado deflação muito além das oscilações de preço das commodities. Não é por excesso de safra, é por queda na demanda.”

Segundo ele, no caso do arroz, a consequência deve ser “uma curva de ajuste” no lado da oferta — ou seja, dos produtores — após a provável redução no preço do pacote nas gôndolas, “talvez a um nível muito próximo do custo de produção”.

Nesse caso, ele completa, “obviamente vai ser necessária uma recomposição nessa cadeia”.

Por outro lado, pontuou Gomes, há também sinais de curvas ascendentes nos últimos cinco anos, principalmente no consumo de alimentos com proteína. Executivos de indústrias de carnes, como a JBS, já vinham apontando essa tendência, que deve se intensificar.

“A nova geração da droga deve chegar no meio do ano, e deve intensificar a questão da massa muscular. Prevemos um aumento de consumo de alimentos com proteínas, como ovos, filé de frango e carne, que já tiveram aumentos recentes bastante visíveis”, disse Gomes.

Na leitura do Assaí, além da quebra da patente, outro vetor desse movimento no curto prazo é a própria composição de mais massa muscular por parte da população.

“Na medida em que aumenta a massa muscular média, cresce ainda mais o consumo de proteína. Em alguns casos, em calorias totais o consumo chegar a ser igual a antes, mas em corpos diferentes, com mais músculos.”

Gomes disse acreditar que o Assaí saberá antecipar o aprofundamento da tendência de bem-estar, como fez com setores não-alimentícios que mostraram forte aumento de demanda recente, como farmácias e pneus automotivos — em pouco tempo, o atacarejo já se tornou o maior vendedor de pneus do Brasil.

“Somos o maior vendedor de proteína e de carne bovina da América Latina. Joesley [Batista, da JBS] e [Marcos] Molina [da MBRF] estão felizes. A gente tenta se antecipar às mudanças, estar preparado para recalibrar a todo momento.”

Onda heterogênea

Presente no painel, Mateus Alencar, vice-presidente comercial da Mdias Branco, reforçou a ideia de uma “caça às proteínas”. Segundo ele, a empresa também está notando uma maior preocupação popular com hábitos mais saudáveis, o que reflete em demanda por alimentos funcionais e rótulos mais limpos.

“Vemos uma tendência clara do consumidor mudando seus hábitos e buscando sabores e experiências diferentes. A gente tem que ir ajustando o portfólio para atender essas expectativas”, afirmou.

Segundo ele, “uma ou outra categoria” pode sofrer mais, mas é possível ajustar o portfólio sem necessariamente eliminar produtos, agregando valor nutricional, principalmente nas massas.

Mas ele faz uma ressalva: os diferentes Brasis têm hábitos distintos, e o movimento fitness ecoa de maneira diferente em cada extrato.

“Primeiro, não subestimar essa onda, nem superestimar. Temos muitos dados que mostram uma variável grande conforme a classe social e a região. No Nordeste, o macarrão faz parte do prato de alimentação básica com o arroz e o feijão. Já no Sudeste, as pessoas comem só o prato de massa. São realidades diferentes.”

Novas moléculas, mais ajustes de portfólio

Isabella Wanderley, ex-CEO da Novo Nordisk — dona dos famosos Ozempic e Wegovy —, reforçou a leitura de que o mercado global deve ser “inundado” por genéricos e similares após a quebra da patente da semaglutida no Brasil e em outros mercados relevantes para os tratamentos antiobesidade, como China e Canadá.

Mas a verdadeira revolução, ela diz, serão as novas moléculas em fase adiantada de desenvolvimento para tratamentos de perda de peso, que vão permitir sair da fase do “tudo igual para todo mundo” para uma etapa de tratamentos mais customizados.

“Há 15 moléculas no pipeline, algumas em fase adiantada. Vai ser um pouco menos sobre perder peso, e mais sobre coisas específicas, uma oferta mais sofisticada e personalizada. Por exemplo, perda de peso sem comprometimento de massa magra, ou produtos para o ‘craving’, aquele momento em que atacamos um doce.”

Segundo ela, além dos prováveis genéricos e similares e dos novos medicamentos, varejo e indústria alimentícia serão afetados pela maior conscientização no sentido de que o tratamento de peso é contínuo, “como se fosse um remédio para pressão alta”.

“As pessoas vão tender a ficar mais tempo em tratamento e manutenção, com mudanças mais permanentes em consumo e estilo de vida. E isso vai demandar ajustes mais profundos”, completou.