
“Para quem não sabe, meu nome é colosso, que é a mistura do colono com o grosso”. A brincadeira veio do megaprodutor Wilson Ferrarin, CEO do Grupo Ferrarin, um dos maiores conglomerados do agronegócio.
Aos 83 anos, o empresário gaúcho trouxe um raro respiro do agronegócio raiz à Faria Lima nesta quarta-feira, ao participar de um painel no Latin America Investment Conference, a tradicional conferência promovida pelo UBS no hotel Grand Hyatt São Paulo.
“Eu vim de uma família com 11 filhos, com 12 hectares de terra. Trabalhei na roça com enxada até os 20 anos, depois fui trabalhar de empregado, ganhando salário-mínimo. Comecei a trabalhar com calcário no solo do Rio Grande do Sul, depois fui para o Mato Grosso”, contou Ferrarin à plateia.
Como muitos conterrâneos, Ferrarin chegou abrindo estrada no facão. Mais de 55 anos de trabalho depois, três filhos e oito empresas, dizer que o esforço deu certo parece até eufemismo.
O grupo que criou reúne fazendas, importadora de defensivos (Agroimport), concessionárias da New Holland (GF Máquinas) e cerealista (Agrofel), entre outros. Neste ano, prevê faturar mais de R$ 8 bilhões. Se confirmado, será um salto de 33% em comparação aos R$ 6 bilhões do ano passado.
“Ano passado teve a seca muito forte no Rio Grande do Sul. Caiu a produção lá embaixo, castigou muito”, disse Ferrarin ao The AgriBiz, justificando a recuperação do faturamento mesmo num período de preços baixos na cadeia de grãos.
Ao todo, o colosso de Ferrarin conta com 1,6 mil funcionários, em 93 estabelecimentos (filiais das empresas) espalhados pelo Brasil. Só na cerealista, são 36 unidades de recebimento de grãos, sendo a maior do Rio Grande do Sul — recebendo soja, milho, trigo e arroz.
Nas fazendas, Ferrarin possui 52 mil hectares de terras, com soja, milho, algodão, gado e arroz. A maior parte das terras está ligada à produção de grãos, com 26 mil hectares dedicados à soja e milho — numa conta que considera safra e safrinha. A maioria fica em Mato Grosso, com exceção de duas, localizadas no Rio Grande do Sul, onde é feita a produção de arroz.
O produtor faz coro à defesa do agronegócio como uma potência ambiental e se defenda das críticas o setor que costuma receber, especialmente na União Europeia.
“O agro dentro do nosso país é malvisto, é o diabinho que derruba mata, mas não tem organização melhor do que o agronegócio brasileiro. Eu tenho uma fazenda no Mato Grosso com 22 mil hectares e 80% disso é mata virgem”, contou.
Mesmo com disposição de sobra, o patriarca afirmou ao The AgriBiz já ter passado o bastão de algumas das empresas para os três filhos.
“Meus três filhos estão junto comigo, fiz a sucessão há 20 anos. Quem toca o dia a dia são eles”, explica Ferrarin, que admite ainda tocar a parte das fazendas junto com os gerentes.
Durante a painel promovido pelo UBS, Ferrarin aproveitou para cobrar (e elogiar) o Banco do Brasil, que esteve representado por Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios.
“O BB tem muito dinheiro, mas é um pouquinho duro”, brincou o megaprodutor, que deu uma no cravo e outra na ferradura. “Sou doente pela agricultura, 83 anos de vida e estou fazendo o que posso. Acredito muito na agricultura e no BB”.
No final da apresentação, Ferrarin também aproveitou o palco para criticar a polarização política. “Não vote na extrema direita e nem na extrema esquerda. Nosso país precisa sair da polarização. Temos que trabalhar. Não vote no Lula nem no Bolsonaro”, afirmou o octogenário, sob aplausos gerais.