
Escondidas no meio de um fluxo quase ininterrupto de notícias ruins — recuperações judiciais, crédito travado e renegociações defensivas — surgem, aqui e ali, algumas manchetes que passam despercebidas pela maioria.
Falam da criação de novos fundos, de veículos sendo estruturados e de capital se organizando para investir em terras. São poucas, discretas e nada ruidosas. Exatamente o padrão do smart money.
Esse capital não entra apesar do ciclo difícil. Ele entra justamente por causa dele.
De forma geral, o conceito de smart money está ligado ao capital que se move antes do consenso, guiado por leitura de ciclo e não por manchete. No plano macroeconômico, isso se repete com frequência: foi assim quando grandes investidores alongaram duration no auge do aperto monetário, antecipando a inflexão do ciclo de juros; ou quando voltaram a ativos reais enquanto o debate público ainda girava em torno de recessão. O smart money aceita desconforto temporário porque opera com horizonte longo, balanço robusto e disciplina para comprar quando preço e valor se afastam.
O atual ambiente de juros elevados, spreads bancários mais largos e menor tolerância ao risco tem produzido uma triagem natural. Modelos excessivamente alavancados, dependentes de rolagem constante e de crédito barato ficam pelo caminho. O efeito colateral — pouco explorado no debate público — é que ativos bons passam a ser negociados com desconto não por falta de qualidade, mas por escassez de liquidez e excesso de ruído.
É nessa assimetria que o smart money opera. Não há busca por narrativas otimistas nem por viradas rápidas de humor do mercado. O foco está em preço que remunere o risco, estrutura de capital defensiva e capacidade de atravessar o ciclo sem ser forçado a vender no pior momento.
Nesse contexto, a terra volta ao centro da tese — não como moda, mas como estratégia. Ativos reais, com lastro físico e opcionalidade operacional, ganham relevância quando o crédito deixa de ser abundante. A terra produtiva bem localizada preserva valor em ciclos longos de aperto monetário, reduz a dependência do sistema financeiro e permite geração de caixa operacional enquanto o mercado financeiro se reorganiza. É posicionamento de ciclo, não oportunismo.
Esse ambiente também alimenta uma dinâmica clássica: a caça às pechinchas. Ativos pressionados por problemas de liquidez ou por estruturas financeiras mal calibradas passam a ser oferecidos a preços que embutem cenários excessivamente pessimistas. O smart money sabe diferenciar ativo ruim de ativo mal financiado. Crises de crédito produzem vendedores forçados — e é justamente aí que surgem oportunidades que não existem em momentos de abundância.
Na prática, o capital sofisticado está olhando para a qualidade agronômica real dos ativos, para a organização jurídica e operacional, para níveis baixos de alavancagem e para a geração de caixa recorrente. Ativos bons, antes penalizados pelo ciclo e pelo ruído, passam a ser reavaliados com lupa. Ativos ruins ficam expostos.
Esse é um paradoxo que se repete em todos os ciclos. Os momentos de maior estresse — crédito escasso, insegurança e manchetes negativas — são justamente aqueles em que o preço mais se afasta do valor. É aí que o smart money se move.
Sem pressa. Sem alarde. Antes que o ciclo vire e a narrativa mude.
Direto da Mesa de Risco
Ah, 2026… novamente um ano carregado de ruído.
Entramos em ciclo de eleições presidenciais, com Copa do Mundo no horizonte, instabilidades geopolíticas persistentes e um cenário internacional marcado por imprevisibilidade. Donald Trump segue agressivo e surpreendente, a China volta a flertar com salvaguardas comerciais e a relação com a União Europeia avança entre pragmatismo e tensão.
Nesse ambiente, temas corriqueiros do mercado financeiro ganham contornos políticos. Pesquisas eleitorais, falas de candidatos e especulações passam a mover moedas, juros e bolsas em movimentos frequentemente descolados dos fundamentos. O mercado fica mais reativo e, por definição, mais volátil.
Esse conjunto de fatores amplia oscilações de curto prazo e contamina expectativas. Para quem opera risco, é um ambiente exigente, que pune decisões apressadas.
No meio desse cenário, há pontos de alívio: a safra de soja segue bem e as expectativas de queda nos juros começam a ganhar tração, ajudando a reancorar decisões de investimento e a aliviar a pressão sobre fluxo de caixa e crédito. Para quem gosta de volatilidade, não vai faltar emoção.
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Rafael Harada, colunista de The AgriBiz, é sócio da Rural Capital. Atuou por mais de 20 anos na gestão de riscos de commodities e câmbio na JBS, onde foi diretor global de gestão de riscos. É engenheiro com ampla experiencia em mercados de commodities agrícolas e finanças corporativas.