
Cinco meses após assumir a vice-presidência de agronegócio do Banco do Brasil, uma tarefa nada trivial diante da escalada de inadimplência rural que atingiu a instituição — derrubando as ações do BB —, Gilson Bittencourt começa a traçar um horizonte menos sombrio.
Em entrevista ao The AgriBiz, o executivo reconhece que os agricultores ainda terão um ano duro pela frente, mas a tendência é que os resultados sejam melhores em comparação a 2025, o que é uma boa perspectiva para os agentes que financiam o campo.
“Não estamos em uma crise de produção. Temos acompanhado o setor e o uso de insumos, por exemplo, está dentro do nível aceitável. O produtor não está plantando com menos insumos”, disse Bittencourt, em conversa com a reportagem após participar do Latin America Investment Conference, conferência promovida pelo UBS em São Paulo.
Um dos maiores especialistas do País em crédito rural, sendo responsável pela elaboração do Plano Safra quando atuava como subsecretário de Política Agrícola do Ministério da Fazenda, Bittencourt traçou um diagnóstico multifatorial dos problemas no crédito agrícola.
Para ele, o simplismo não ajuda a entender o cenário. Em outras palavras, não basta culpar a Selic e tampouco a queda nos preços dos grãos. Se isso fosse decisivo, a situação crítica seria generalizada, com reflexos no plantio.
“Temos uma Selic mais elevada, sim, que consome mais da receita do que historicamente. Mas existem produtores que estão sobrevivendo a isso e estão pagando suas dívidas normalmente”, argumentou o vice-presidente do BB.
As coisas começam a complicar quando os juros altos se somam a outras condições, que incluem os preços dos grãos, é claro, e investimentos em ativos que estavam inflacionados durante os anos de boom da soja — as máquinas agrícolas são um caso clássico.
“Durante a pandemia, o preço das máquinas subiu muito. Uma colheitadeira de R$ 1 milhão estava sendo vendida por R$ 1,8 milhão. Um trator de R$ 500 mil saía por R$ 900 mil”, lembrou Bittencourt.
Nesse período, era comum que as instituições financeiras cobrassem juros pré-fixados de 7,5% a 8% ao ano para dar crédito à compra de máquinas. “Hoje, com uma Selic de 15%, esse produtor está pagando o financiamento com 7,5%. Então, qual é o problema? O aumento de preços das máquinas”, frisou.
Tipicamente, essas linhas de financiamento de máquinas tinham prazos de carência de dois a três anos, o que fez com que o início dos pagamentos do principal coincidisse com o pior momento em rentabilidade para o produtor.
Uma solução comum para resolver o problema foi a rolagem das dívidas, não só para as máquinas, mas para o próprio crédito de custeio agropecuário. Segundo Bittencourt, houve uma onda de rolagens no início de 2024 — não apenas no Banco do Brasil. Naquele momento, muitos produtores de soja, milho e gado tentaram alongar o passivo.
“Você jogou uma safra inteira para frente, por problema climático ou de preços. Agora, aquele que está pagando a safra com Selic mais alta também está pagando um terço de safras anteriores. O fluxo de caixa apertou”, disse Bittencourt.
Nesse desarranjo, entra também o aumento do ativo imobilizado por parte dos produtores — leia-se, aquisição de terras —, também reflexo da euforia que marcou a agricultura entre 2021 e 2023.
“Aquele lucro excedente foi reinvestido. O produtor comprou mais terra, comprou avião, mais equipamento. Quando comprou mais terra, aumentou a necessidade de custeio. Nisso, ele diminuiu o recurso próprio e passou a depender ainda mais de instituições financeiras”, explicou.
É a soma de todas essas questões que trouxe a crise atual, que não é generalizada, frisou o executivo em diversos momentos. Na visão de Bittencourt, as dificuldades estão concentradas em uma parte menor da cadeia de produção, formada por arrendatários e alguns grandes produtores.
“Em determinadas regiões do País, Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, se avançou muito o arrendamento e foram feitos contratos de longo prazo com 20 sacas, 18 sacas de soja por hectare. De novo, o produtor calculou em função da perspectiva de vender mais caro. Como vendeu mais barato, a conta apertou”, disse Bittencourt.
Nesse processo, a única saída que o executivo vê é uma renegociação desses contratos de arrendamento. “Não vai ter medida provisória ou lei que resolva, porque ele cresceu demais ou fechou um contrato que não é sustentável ao longo do tempo”, enfatizou, mostrando que não há saída estatal para esse tipo de problema.
Apesar disso, algumas medidas do governo ajudaram, disse Bittencourt, citando o impacto positivo da MP 1314, focada em renegociação de dívidas para o setor. Essa medida, aliás, foi extremamente relevante para o balanço do banco.
De tudo o que o Banco do Brasil já renegociou no âmbito dessa medida provisória, 40% foram repactuados com juros pós-fixados. Diante das perspectivas de queda da Selic, isso pode ser mais um alívio para os produtores.