Crédito

Um agrônomo na Faria Lima: Na Sparta, a boa colheita do seu Victor

Victor Nehmi começou a investir com um clube de commodities nos anos 1990, o embrião da respeitada gestora de crédito. Conheça sua trajetória e a estratégia da Sparta no agro

Atravessar as pontes entre o mercado financeiro e os rincões do agronegócio brasileiro não é um percurso simples. A língua nem sempre é a mesma. Que o digam os gestores de crédito que se encantaram com o setor durante o boom dos grãos durante a pandemia, mas enfrentam o espectro da recuperação judicial.

Na Faria Lima, Victor Nehmi é uma rara e longeva exceção. Quando investir no agro ainda era palavrão e o agricultor levava a pecha de caloteiro contumaz, o engenheiro agrônomo formado pela Esalq — a tradicional escola de Piracicaba — atraiu investidores com um clube de investimento em commodities.

No início da década de 1990, nem todos se atreviam a investir no mercado de boi gordo, mas alguns dos maiores gestores do mercado brasileiro fizeram fama começando pelas commodities — Luis Stuhlberger, da Verde, sem dúvida é o maior expoente. Nehmi também foi um deles.

Filho de um dos químicos mais famosos da história brasileira, Nehmi transformou o Clube do Futuro Investimentos, iniciativa fundada em 1993, em uma gestora de fundos em 2005. Surgia assim a Sparta.

Victor Nehmi, fundador da Sparta
Victor Nehmi começou a investir com um clube de commodities na década de 1990, o embrião da gestora de crédito Sparta

Com tempo, seu filho Ulisses Nehmi assumiu a comando da asset, ajudando a transformar a Sparta em uma das gestoras de crédito mais prestigiadas do país, com R$ 11 bilhões sob gestão. Até hoje, seu Victor — como é conhecido entre os espartanos —, lidera o Sparta Cíclico, um fundo de commodities que multiplicou o capital dos investidores em mais de 30 vezes desde o início, em 2005.

A volta ao agro

De lá para cá, seu Victor nunca deixou de olhar para as commodities, mas a área de crédito privado — o coração da Sparta — só ampliou os investimentos no agro nos últimos dez anos, com o amadurecimento do mercado brasileiro de CRAs e, mais recentemente, com a criação do Fiagro.

Atualmente, o portfólio em emissores do agronegócio representa cerca de R$ 400 milhões, com parte disso distribuída em fundos agnósticos. No CRAA11, o Fiagro da Sparta, são R$ 50 milhões de patrimônio líquido, um fundo ainda pequeno para as ambições da gestora.

Não fosse o mau humor dos investidores com o mercado de Fiagros — um efeito colateral da crise da agricultura, que respingou em alguns fundos —, o fundo da Sparta até já poderia ter feito um follow-on para ampliar o tamanho do CRAA11.

O Fiagro da Sparta é um dos poucos do mercado que negocia com ágio, com as cotas acima do valor patrimônio, o que costuma ser um bom termômetro para captações. Ontem, as cotas do CRAA11 fecharam a R$ 104,64. O valor de mercado do fundo está em R$ 51 milhões, com um rendimento de 17% nos últimos doze meses encerrados em fevereiro.

O azedume do investidor é também um retrato do desconhecimento que muitos dos investidores ainda têm sobre o agronegócio brasileiro.

“Como o pessoal da cidade entende pouco do agro, pensa direto no produtor rural. Mas o agricultor é só a ponta do iceberg. Por debaixo há um mundo, uma cadeia supercomplexa”, disse seu Victor, em entrevista ao The AgriBiz.

Na Sparta, os emissores do agronegócio que fazem parte dos fundos da casa estão muito no elo depois da porteira, com uma exposição menor ao produtor de grãos.

“A gente foca muito mais no agribusiness do que na agricultura propriamente, o que é muito mais seguro e oscila menos”, prosseguiu o fundador da Sparta, citando a participação do PIB de cada elo do agronegócio.

“Há todo um complexo de máquinas, insumos, traders, processadores da produção agrícola, uma cadeia enorme que gera 22% do PIB brasileiro. O produtor sozinho é 7%”, destacou.

Sem risco excessivo

Para Márcio Takaya, sócio da Sparta e um dos gestores do CRAA11, ainda há um processo educacional para o investidor perceber que há nuances entre os diversos Fiagros do mercado.

“É preciso desmistificar que Fiagro é 100% grãos. Isso é errado. Claro, vão ter Fiagros que vão performar mal porque tomaram riscos excessivos em um momento de euforia”, argumentou o gestor.

Se há uma perspectiva positiva na crise que atinge parcela dos produtores rurais, será separar o joio do trigo quando o assunto é Fiagro, além de mostrar que nem todo fundo está alocado em ativos diretamente relacionados aos grãos.

“Há Fiagros que vão bem e vão se provar com uma gestão vencedora, que é diligente e entrega retornos”, disse Takaya. A Sparta quer estar nesse time.

Não à toa, o gestora sempre preferiu o investimento em créditos de risco mais baixo, com uma carteira de CRAs com um carrego médio de CDI + 3% ao ano. “Já fizemos muita conta. A longo prazo, o high grade bate o high yield”, argumentou o gestor.

De onde vem o retorno

No crédito, o jogo é não perder — ao contrário do funcionamento nos mercados de equities, quando uma porrada pode mais do que compensar as perdas.

“A filosofia é não arriscar, até porque o máximo que pode acontecer no crédito é o devedor pagar. Mas, se não pagar, você pode perder 70% do valor investido. Então, não é dois ou três pontos de spread que justifica comprar esse risco”, ressaltou Takaya.

Com esse espírito, a Sparta constrói a rentabilidade do fundo mesclando o carrego de alguns papéis com a venda de CRAs no mercado secundário, fazendo um lucro importante com a valorização dos papéis.

Do retorno de 17% distribuído pelo Fiagro da Sparta em doze meses, 12,7% veio do CDI, 3,6% do carrego (o spread dos papéis, efetivamente) e 2,6% da marcação a mercado, ou seja, da valorização dos papéis. Para chegar a essa conta, deve-se descontar os custos (1,8%) e a marcação a mercado negativa dos títulos indexados (-0,5%).

“Buscamos uma carteira com carrego de CDI+ 3%, que é um dos mais baixos do mercado, mas entregando retorno oriundos da gestão ativa. Em doze meses, fizemos uma carteira que corresponderia a CDI +6,2% mesmo sem nunca ter um papel com esse carrego”, ressaltou Takaya.

Setor proibido?

Na escolha dos papéis com risco mais baixo, o Fiagro da Sparta investe em emissores como frigoríficos (Minerva, JBS e São Salvador), cooperativas (Capal, Lar e Integrada), insumos (Solubio), companhias de sementes (Jotabasso e GDM), usinas (Uisa e Coruripe), além de ativos mais distantes do agro, como Vicunha, Flora e Braskem.

Na prospecção, não há setor proibido. Ainda que o produtor rural pessoa física seja alvo distante — especialmente em momentos como o atual —, a gestora não se nega a bons nomes do setor. “O setor que está sendo questionado no mercado é o de produção de grãos, mas se a SLC emitir um papel a uma taxa a adequada, eu aloco”, disse Takaya.