
Para espanto geral de um mercado já cansado de notícias ruins, uma trading aparentemente saudável sumiu. Uma das 20 maiores comercializadoras de grãos do País, a Aliança Agrícola desapareceu do mapa, num movimento que chocou credores, funcionários e fornecedores.
Controlada pelo grupo russo Sodrugestvo, que pertence ao bilionário Alexander Lutsenko, a Aliança Agrícola parece estar fechando as portas depois de 14 anos de atuação no Brasil.
Informações desencontradas começaram a circular na manhã desta quarta-feira. Ao que tudo indica, a Aliança Agrícola está demitindo mais de 300 funcionários em diversas regiões, se comprometendo a quitar todas as rescisões.
A companhia teria suspendido as operações no País, o que inclui as esmagadoras de soja localizadas em Bataguassu (MS) e São Joaquim da Barra (SP) e as filiais de recebimento de grãos espalhadas por São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
“Ninguém entendeu nada”, disse um credor ao The AgriBiz. Há menos de um mês, os executivos da companhia ainda tinham boa interlocução com os financiadores, traçando planos para o futuro.
Publicamente, a companhia vinha operando dentro da normalidade, e chegou a receber prêmios na imprensa por ser uma das 100 maiores companhias do agronegócio no Brasil. No LinkedIn, há menos de uma semana, a Aliança Agrícola anunciava vagas de emprego.
Nesta quinta-feira, no entanto, tudo se esvaiu. Credores que tentaram acessar os principais executivos da Aliança Agrícola ficaram no escuro. Danilo Dalia Jorge, CEO da trading no País, não atende. Um chá de sumiço que atingiu toda a direção, o que levantou dúvidas se os russos pararam tudo em meio a problemas de governança.
O curioso da história é que a trading não parecia estar em dificuldades financeiras. Apesar do momento adverso para a cadeia de grãos, a Aliança Agrícola vinha atendendo todas as métricas exigidas dos credores: balanço auditado pela KPMG, publicado no tempo certo e indicadores de endividamento enquadrados nas exigências dos empréstimos.
Na safra 2024/25, a companhia registrou uma receita líquida de R$ 4,6 bilhões, uma queda de 7% e distante do auge da safra 2022/23, quando o boom dos grãos fez o grupo faturar R$ 6,6 bilhões.
Em rentabilidade, a situação estrava longe de ser excelente, mas não vinha preocupando os credores. Os dados da última safra mostram um Ebitda de R$ 152 milhões, com margem de 3,3% — compatível com o nível de uma trading e melhor do que o resultado da safra anterior, que foi de 2,3%.
Ao todo, a Aliança Agrícola possuía quase R$ 1,3 bilhão em dívidas financeiras no fim de junho. O grosso das dívidas é composta por linhas bancárias que financiam as exportações (ACCs e PPEs), mas também inclui o mercado de capitais em uma proporção bem menor.
Há quase três anos, a companhia levantou R$ 200 milhões com a emissão de CRAs que foram encarteirados por Fiagros listados como BBGO11 (Banco do Brasil), GCRA11 (Galápagos), RURA11 (Itaú Asset), CPTR11 (Capitânia) e OIAG11 (Ourinvest).
A boa notícia é que, mesmo que a Aliança Agrícola deixe de existir, os investidores dos CRAs não vão ficar na mão. Documentos da Ecoagro, que fez a emissão, mostram que há dinheiro suficiente no caixa da securitizadora para honrar o saldo da dívida, incluindo o prêmio de liquidação antecipada.
Como a Aliança Agrícola não pagou os juros mensais do CRA, que deveriam ter sido transferidos ontem à securitizadora para pagar os investidores amanhã, é possível que se configure um evento de vencimento antecipado. Diante da atual situação, seria um bom desdobramento para os credores.
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Procurada de diversas formas por The AgriBiz, a Aliança Agrícola não respondeu até a publicação. A reportagem tentou contato com executivos e representantes da companhia.