Sede do Banco do Brasil | Schutterstock

No Banco do Brasil, a redução da inadimplência na carteira de crédito do agronegócio deve ficar para o segundo semestre de 2026, segundo Felipe Prince, chefe de risco do banco. Em novembro, executivos da instituição haviam sinalizado que o patamar de atrasos nos pagamentos poderia começar a cair a partir deste primeiro trimestre.

“Dada a renda que continua positiva no campo, a safra recorde e a reconstituição da capacidade de pagamento que a MP 1314 (de renegociação de dívidas rurais) trouxe, isso naturalmente vai criando um processo de redução do risco, principalmente a partir do segundo semestre de 2026”, disse Prince durante apresentação a investidores nesta quinta-feira, sem detalhar o que motivou a mudança no timing das expectativas de melhora.

Outro fator que deve diminuir os níveis de inadimplência, a partir da segunda metade do ano, é o maior rigor na análise de concessão de crédito para a safra 2025/26, com o reforço das garantias exigidas nas operações.

Durante os primeiros seis meses do Plano Safra 2025/26, o Banco do Brasil liberou R$ 103,9 bilhões em crédito ao agronegócio, uma queda de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Cerca de 75% desses empréstimos foram feitos com alienação fiduciária como garantia (um tipo muito mais robusto do que o penhor, por exemplo).

“Esse crédito vem com mais qualidade, estamos mais bem amparados em termos de garantia. Isso vai fazer com que a inadimplência caminhe de forma positiva principalmente a partir do segundo semestre de 2026. Mas será um fluxo de melhora irregular durante o ano. Vamos ficar pressionados principalmente no primeiro trimestre”, ressaltou Prince.

R$ 35 bi renegociados

No esforço para mostrar o que já foi feito até aqui, a alta gestão do banco dedicou boa parte do tempo para conversar com analistas sobre os impactos do BB Regulariza Agro, o programa criado pela instituição financeira a partir da MP 1314 — sancionada pelo governo federal com o intuito de trazer uma via para a regularização de créditos no agro.

Desde o surgimento da MP até o final do prazo estabelecido para as renegociações (o dia 10 de fevereiro deste ano), o BB incluiu conseguiu renegociar R$ 35,5 bilhões em dívidas ligadas ao agronegócio.

Desse total, R$ 32,2 bilhões foram contratados com recursos livres e R$ 3,3 bilhões com recursos controlados. O montante negociado com recursos livres ficou até acima do teto estabelecido para benefícios fiscais que poderiam ser acessados pelo banco. De acordo com Geovane Tobias, CFO do banco, esse “teto” era de R$ 25 bilhões.

O fato de o banco ir além do teto do benefício fiscal está ligado ao esforço de estabilizar a inadimplência, claro, mas também à relação com um cliente historicamente importante para o banco além da carteira de agro: hoje a maior clientela do Private do BB vem de clientes ligados ao agronegócio.

Isso não quer dizer que a renegociação tenha sido desenfreada, segundo os executivos. Os clientes selecionados para o BB Regulariza Agro foram escolhidos a dedo, priorizando aqueles com uma relação longeva com o banco e os adimplentes (que teriam problemas de pagamento nas parcelas futuras).

“É importante destacar que os produtores que não demonstravam capacidade de pagamento nós não fizemos essa nova operação com eles, porque seria empurrar para frente o problema. Por isso ainda mantivemos inadimplência elevada no fim de 2025 e primeiro trimestre de 2026. Focamos em produtor com capacidade de pagamento”, disse Gilson Bittencourt, VP de Agronegócio do BB.

Tobias, o CFO, explicou ainda que não há mudança nos estágios de provisão do banco a partir do que foi renegociado com o BB Regulariza Agro (ou seja, créditos listados como ‘estágio 3’ não serão revertidos a partir dessa nova renegociação).

“A renegociação não foi feita para reduzir a provisão. O que fizemos foi ampliar a capacidade de pagamento dos agricultores com o intuito de normalizar a inadimplência. Este ano continua sendo de recuperação. Não sabemos se em V, pode ser em W ou em escada, mas não vamos desassistir esse segmento”, afirmou Tobias.

Os empréstimos feitos dentro do BB Regulariza Agro têm um ano de carência para o pagamento de principal, mas exigem o pagamento de juros nesse período. Segundo Tarciana Medeiros, CEO do banco, o BB vai manter um acompanhamento próximo com esses devedores.

“Vamos seguir próximos desde o pequeno até o mega produtor. Somos o banco do agro e continuaremos sendo esse banco”, acrescentou, ressaltando que o BB deve estar em 230 novas praças com agências agro especializadas ao longo de 2026.

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Na carteira do final do ano, o BB tinha mais de R$ 7 bilhões em créditos ligados a devedores em recuperação judicial. Segundo Prince, 75% dessa carteira já está provisionada (um percentual em linha com a média histórica de provisões desse tipo).

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As ações do BB operam em alta de 1,45% no início desta tarde, cotadas a R$ 25,28. Na bolsa, o banco vale R$ 143,8 bilhões.