
Durante a cerimônia de premiação do Cup of Excellence, o oscar dos cafés de qualidade, que aconteceu no início deste mês na capital paulista, o mineiro Luiz Paulo Dias Pereira Filho, 45 anos, recebeu o título “Lendas da Excelência”.
A honraria, recém-criada pela Alliance for Coffee Excellence (ACE), homenageou seis cafeicultores do mundo, que, além de produzir cafés fantásticos, sabem posicioná-los globalmente e promover uma indústria mais justa e sustentável.
Quarta geração na cafeicultura, Luiz Paulo traz a paixão no sangue. Sua família tem mais de 200 anos de história na produção cafeeira e ele, ainda muito jovem, começou a acompanhar os eventos da BSCA, sigla em inglês para Associação Brasileira de Cafés Especiais.
Na época, Vanusia Nogueira, hoje diretora executiva da Organização Internacional do Café (OIC), era da liderança da BSCA e comentava sobre o entusiasmo do garoto, carinhosamente apelidado por ela com LP.
“Luiz Paulo sempre foi uma estrela, com um senso de oportunidade e pioneirismo muito acima do usual para sua idade. Em muitos momentos, era exposto a situações que exigiam amadurecimento. Conheci o LP com menos de 30 anos e, aos 30 anos, ele assumiu a presidência da BSCA, quando já era a diretora. Trabalhamos fantasticamente juntos e acredito que lhe ajudei a enxergar o mundo com olhos mais maduros e disciplinados”, diz.
Não por acaso, Vanusia foi lembrada por LP no momento que recebeu o prêmio. “Pena que a Vanusia não está aqui, porque ela sempre me incentivou”, disse Luiz Paulo. “Este troféu não é só meu, é do Brasil, de todos os produtores que se dedicam na produção de cafés especiais”, completou.
Obstáculos no caminho
Em 1991, quando a BSCA foi criada, o Brasil exportava 120 mil sacas de café especial. No ano passado, vendeu 9 milhões de sacas ao exterior. Em 2000, quando LP começou nos cafés especiais, o mercado ainda era difícil.
“Ninguém acreditava no potencial dos cafés brasileiros, a não ser os fundadores da BSCA [criada em 1991]”, diz. A missão de mostrar ao mundo que o Brasil tinha cafés de altíssima qualidade exigiu paciência e persistência.
“Lembro de um evento no Japão, montei a mesa com os melhores cafés brasileiros e um japonês virou e me disse: ‘Desculpa, isso não é café brasileiro’. Rebati indagando: ‘Você acha que viria aqui mostrar café que não é do Brasil?’ Ele respondeu: ‘Eu vou para o Brasil, se eu provar este café lá eu compro o lote todo’”, relembra LP.

O japonês de fato veio ao Brasil, mudou sua opinião sobre os cafés nacionais e é cliente de LP há 20 anos. No entanto, esta tarefa de prospectar clientes, visitar parceiros, descobrir novas tendências de consumo tem um alto custo pessoal.
“Por ano, são mais de 200 dias fora de casa”, relata LP, que conta com o apoio da mulher e da filha. Só para o Japão, o mineiro já foi 35 vezes e coleciona histórias. “Teve um potencial cliente japonês que visitei por sete anos consecutivos, mas ele não acreditava que o Brasil produzia bons cafés. No oitavo ano, fui para lá, mas não ofertei café para ele, que me perguntou: ‘Você não vai me oferecer café?’, eu disse não e ele rebateu ‘agora, eu compro’”, conta LP.
E engana-se quem pensa que Luiz Paulo só visita país consumidor. “Ele vai muito para as origens: América Central, África e outros países produtores. Isso permitiu que ele dominasse a arte dos vários tipos de processamento de café. Esta é uma genialidade do Luiz Paulo, que processa a fruta de acordo com o que o cliente final quer”, diz Carlos Santana Júnior, diretor comercial do Grupo Ecom no Brasil.
Holofotes para o café brasileiro
Há 15 anos, Luiz Paulo iniciou um novo projeto na sua Fazenda Santuário do Sul, em Carmo de Minas (MG), região da Mantiqueira de Minas. Ele começou a plantar as variedades de café que mais brilham no mundo quando o assunto é qualidade: Geisha (natural da Etiópia), Laurina (café naturalmente descafeinado), SL28 (natural do Quênia), Sudan Rume (café do Sudão), Eugenioides (um dos ancestrais do café arábica), entre outros.

“Estava cansado de escutar que o Brasil não tinha café bom. Nós erámos injustamente comparados, mas não estávamos falando da mesma coisa”, diz LP. “Comecei este projeto para comparar Geisha com Geisha, café lavado com café lavado e mostrar que o Brasil tem condição de produzir cafés tão especiais quanto qualquer outro país”, explica o cafeicultor.
Com espírito inovador, mente empreendedora e hospitalidade digna de um bom mineiro, Luiz Paulo foi conquistando clientes por todo mundo. Dono de uma empatia ímpar, ele consegue ler a personalidade e a cultura de cada cliente e fazê-lo sentir-se em casa.
“Na verdade, trabalhar com café não é só negócio, é um estilo de vida. Não é só o café que é especial, as pessoas têm relacionamentos especiais e isso faz toda a diferença no mercado”, afirma.
Do Brasil para o mundo
Aos poucos, Luiz Paulo foi removendo obstáculos e ajudando o Brasil a ser reconhecido não apenas com o maior produtor de cafés, mas como origem de cafés altíssima qualidade. Em 2002, ele criou a Carmo Coffees, exportadora de cafés especiais.
“Começamos exportando os cafés da família [hoje as fazendas do lado do pai e da mãe somam 1000 hectares], dos amigos da família, do amigo do amigo”, conta. No primeiro ano de operação, a Carmo Coffees enviou 87 sacas ao exterior. “Este ano, vamos exportar 300 mil sacas”, diz.
O empreendedorismo de LP chamou a atenção da Eisa, subsidiária brasileira do Grupo Ecom, que tem participação na Carmo Coffees.
“Nós estávamos tentando construir um departamento de cafés especiais. E, rapidamente, reconhecemos que o café especial pressupõe um outro tipo de profissional para entregar toda experiência do café especial. Nós mapeamos o Brasil, os terroirs que estavam exportando mais e chegamos à Mantiqueira de Minas”, diz Santana Júnior, diretor comercial do Grupo Ecom no Brasil. “Foi quando conheci o Luiz Paulo e propus a sociedade, porque ele tem o DNA mineiro, esta maneira de hipnotizar as pessoas”, acrescenta.
Luiz Paulo já esteve 23 vezes entre os vencedores do Cup of Excellence (COE) e com o prêmio se torna “hors-concours” deste que é o maior concurso global de qualidade no café. Inclusive, é de sua família a maior nota da história da competição, um café de 95,85 pontos produzido por seu tio, Francisco Isidro Pereira, em 2005.
Além dele, a ACE reconheceu outros cinco produtores como “Lendas da Excelência”. São eles: Benjamin Paz, de Honduras (cinco vezes vencedor do COE); Juan Diego De La Cerda, da Guatemala (13 vezes vencedor do COE); Ernesto Menéndez, de El Salvador (cinco vezes vencedor do COE); Manuel Antônio “Toño” Barrantes, de Costa Rica (10 vezes vencedor do COE); e Olman Valladarez, da Nicarágua (14 vezes vencedor do COE).
“Nós da BSCA reverenciamos este menino. É cria da gente e, além de dominar o universo café dentro da unidade de produção, está atento ao movimento de consumo, ao que as pessoas querem para atender à esta demanda”, diz Carmem Lúcia Chaves de Brito, a Ucha, presidente da BSCA, cargo que LP ocupou por duas vezes, a primeira em 2011, aos 30 anos, quando se tornou o presidente mais jovem da história da associação.
“É muito natural ver este reconhecimento. Tenho o privilégio de estar perto do Luiz Paulo durante os últimos 20 anos e a paixão dele pelo café é realmente algo único”, finaliza Júnior.