
Contrariando as expectativas, os Estados Unidos não diminuíram sua importação de café após o tarifaço. Pelo contrário: os americanos aumentaram em expressivos 6,5% sua importação de café, substituindo parte das compras que faziam do Brasil por outros fornecedores.
“Perdemos espaço, eles conseguiram buscar em outras origens”, diz Fernando Maximiliano, gerente de inteligência de mercado de café da StoneX. Segundo ele, os dados mais recentes dos EUA, com números até setembro, mostram um aumento de 6,5% nas importações de café em relação ao mesmo período do ano anterior.
“E o mercado continua aquecido. A resistência do consumo é maior lá”, afirma o especialista da StoneX. Nos Estados Unidos, praticamente todas as empresas do setor mostraram avanço na receita, mesmo com aumento no preço, e alguma queda nos volumes vendidos.
Quanto à relação com o Brasil, Maximiliano acredita que os números de dezembro já devem trazer alguns sinais da recuperação, embora haja um esperado delay entre a isenção tarifária, em 20 de novembro, e os reflexos nos fluxos comerciais.
E há uma sazonalidade a levar em conta. “Geralmente, as exportações avançam no segundo semestre, e em janeiro e fevereiro, perdem força. Vamos ver se o que deixamos de exportar será compensado em 2026. É algo importante, considerando a incerteza sobre como vai se dar esse reestabelecimento com os EUA.”
Maximiliano traz um contraponto: assim como os americanos encontraram outros vendedores, o Brasil também achou compradores. É o caso da Colômbia, que comprou 580% mais café brasileiro em 2025 na comparação com 2024 — provavelmente repondo estoques após terem vendido mais aos americanos.
Queda no consumo mundial
Se nos EUA o trade de café foi marcado por aquecimento, no resto do mundo a situação foi oposta, refletindo um cenário de persistente enfraquecimento no consumo — motivado em parte pelos aumentos nos preços no varejo.
“Em todo o mundo há um cenário de enfraquecimento no consumo. Até no Japão, a All Japan Coffee Association reportou queda de consumo entre janeiro e agosto de mais de 3%”, diz Maximiliano. Nas contas da StoneX, a queda global no consumo deve ser de 3% em 2025.
No robusta, o Brasil desponta
Em um evento doméstico com potencial efeito global, Maximiliano pontua que a área brasileira de robusta cresce em ritmo mais que o dobro do que o da área de arábica, sinalizando passar o Vietnã.
“Estimamos que nos últimos três anos a área plantada de robusta no Brasil cresceu entre 4,5% e 5% todo ano. É mais que o dobro do que tem crescido a área do arábica”, ele explica.
“O investimento na instalação de robusta tem sido intenso, e eventualmente essas lavouras novas vão produzir no auge”, afirma.
Com isso, a produção brasileira de robusta deve chegar a 25,8 milhões de sacas nesta safra, nas contas da StoneX — não muito longe do patamar entre 28 milhões e 30 milhões do Vietnã, líder mundial.
“O Vietnã nesta temporada se recuperou e deve chegar a 30 milhões de sacas. Mas estamos próximos. Em 2027, se o clima não for problema, é de se esperar uma safra recorde aqui. Talvez o Brasil precise de mais alguns anos, mas é dado como certo que vai ultrapassar.”