Café exportação

As exportações de café do Brasil caíram 30,8% em janeiro na comparação com o mesmo mês de 2025, com diminuições em todas as naturezas e qualidades do produto, configurando o que o Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) vê como um cenário “desafiador”.

O resultado sucede — e intensifica — o balanço negativo da entidade em 2025, que apontou uma redução de 20,8% no volume exportado pelo País.

Mas, em um raro alento, as vendas de café arábica para os Estados Unidos — que eram os principais compradores dessa variedade do Brasil até antes do tarifaço — se recuperaram parcialmente e atingiram o maior nível desde junho de 2025.

Àquela altura, os EUA já haviam chacoalhado a ordem comercial global com a tarifa básica de 10% sobre todas as suas importações, mas ainda não haviam penalizado o Brasil com a sobretaxa de 40% criada no final de julho.

“Você percebe que em janeiro a exportação de arábica deu uma guinada, é um reflexo da isenção da tarifa”, explica Eduardo Heron Santos, diretor técnico do Cecafé.

Exportação de café aos EUA em janeiro de 2026 | Crédito: Cecafé
Exportação de café aos EUA em janeiro de 2026 | Crédito: Cecafé

O saldo na comparação com janeiro de 2025 ainda aponta uma queda de 46% nas vendas aos EUA. Mesmo assim, com a recuperação parcial, os americanos quase retomaram a primeira posição entre os compradores do café brasileiro, perdida para a Alemanha após o agravamento do tarifaço, a partir de agosto — a diferença para o primeiro lugar foi de menos de 6 mil sacas.

Em números: a Alemanha importou 391,7 mil sacas do Brasil, enquanto os EUA compraram 385,8 mil sacas. Completam o ranking dos cinco maiores destinos dos cafés brasileiros a Itália (285,5 mil sacas), a Bélgica (180,8 mil sacas) e o Japão (169,3 mil sacas).

Cenário “desafiador”

A despeito da tentativa de enxergar o copo meio cheio no aspecto pontual das vendas de arábica aos norte-americanos, o resultado em janeiro foi “muito ruim”, explicou Heron.

Foram 2,78 milhões de sacas exportadas no mês passado, uma queda de 30,8% frente às 4,01 milhões de sacas registradas no primeiro mês do ano passado.

Em receita, a queda foi menor, de 11,7%, totalizando US$ 1,17 bilhão (R$ 6 bilhões), segundo o relatório mensal do Cecafé, em um indicativo de que a cadeia conseguiu surfar bem a volatilidade que vem pautando o mercado desde 2025.

O arábica seguiu como o tipo mais exportado pelo Brasil, com 2,34 milhões de sacas, o equivalente a 84,4% do total, mas em queda de 29,1% frente a janeiro de 2025.

Já as variedades canéforas (conilon e robusta) tiveram redução de 45,6% na base anual.

Também em queda, completam a lista o café solúvel, que caiu 32% na comparação anual, e o café torrado e moído, com diminuição de 53,8% na mesma base de comparação.

Nesses casos, o tarifaço pesa: ambos os produtos ainda estão submetidos à taxação de 50% instituída pelo governo americano, junto ao qual o Brasil pleiteia a isenção.

A redução também foi sentida nos cafés especiais, com qualidade superior e/ou certificados por práticas sustentáveis, que representam cerca de um quinto (21,2%) do total exportado pelo Brasil. A categoria viu uma diminuição de 41,9% nos embarques na comparação com janeiro de 2025. Em volume financeiro, a queda foi de 23,2%.

“Janeiro foi um mês desafiador. Com a queda de 30% em volume, ficou difícil destacar uma boa notícia diante dos diversos desafios enfrentados pelo setor”, diz Heron.

Segundo ele, alguns motivos colaboraram para o resultado negativo, principalmente a menor oferta de café, os baixos níveis dos estoques e a volatilidade do mercado.

“Estamos em um período de entressafra, quando, à exceção de 2025, os volumes costumam ser baixos. Também tivemos o impacto do tarifaço, dá para perceber na queda nas vendas aos EUA, muito por conta do solúvel.”

Além disso, o produtor brasileiro está capitalizado após dois anos de preços altos e em um cenário de estoques baixíssimos, estimados em meras 2 milhões de sacas no mundo.

“A gente tem um conjunto de variáveis que tem deixado o mercado oscilando bastante. Como o produtor está capitalizado, ele segura um pouco o café, aguardando preços melhores.”

Para piorar, a valorização recente do real colabora para deixar o produto brasileiro menos atrativo. “Outros países, como o Vietnã, que vêm com oferta maior, acabam ficando mais competitivos”, afirma o diretor do Cecafé.

Segundo Heron, o que pode inverter o cenário é a concretização das previsões de uma nova safra boa no Brasil — a previsão mais conservadora, da Conab, aponta para mais de 66,2 milhões de sacas, superando o recorde de 63,1 milhões de sacas em 2020.

“Aí, sim, talvez a gente tenha mais otimismo. Mas até chegar na colheita, do arábica em agosto e do conilon um pouco antes, a gente ainda vai viver momentos desafiadores”, completa.