Café Arábica

No apagar das luzes de 2025, uma assembleia da mineira Cocapil (Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Ibiraci) para discutir a reestruturação de uma dívida de R$ 45,2 milhões com produtores foi realizada sem a presença dos três principais membros da sua diretoria. O motivo alegado surpreendeu os presentes. 

O presidente Elvis Vilhena Faleiros e os diretores Guilherme Andrade Clausing e José Ivano Bruziquesi Neto são réus em um processo na Justiça de Minas Gerais, após investigação policial no município de 11 mil habitantes encravado entre a Alta Mogiana e o Sul de Minas, principais regiões de café arábica do Brasil. Um processo que culminou com a ordem de prisão de Faleiros.

O inquérito apura supostos crimes de apropriação indébita qualificada, associação criminosa e gestão temerária/fraudulenta de cooperativa. Diligências e investigações apontaram para um desfalque que pode superar 20 mil sacas de café e levaram a Polícia Civil e o Ministério Público a pedirem a prisão e a entrega de passaportes, além do sequestro, arresto e indisponibilidade de bens dos investigados.

O prejuízo é estimado pela Justiça em mais de R$ 50 milhões, com aproximadamente 150 cooperados afetados, todos depositantes que confiaram seu café à guarda da Cocapil.

O processo nasceu após o registro de boletins de ocorrência por quatro cafeicultores em dezembro passado. Eles entregaram entre 35 e 1.246 sacas de café na Cocapil. Ao tentarem reaver o produto ou retirar a commodity e entregá-la aos compradores, foram informados de que o café não existia mais. Segundo os autos do processo, um dos denunciantes anexou vídeos “que demonstram o completo esvaziamento dos armazéns” da Cocapil.

A Polícia Civil e o MP pediram a extensão das medidas e da investigação a três empresas (Fly Coffee Direct Trading Brasil LTDA, Armazéns Gerais União LTDA e Eldoradoagro Participações LTDA) que teriam participação dos investigados como sócios e, “em tese, compõem o mesmo grupo econômico ou foram utilizadas para blindagem patrimonial”.

O processo corre na Vara da Comarca da Pratápolis (MG), município a 60 quilômetros de Ibiraci. Em 15 de dezembro de 2026, nove dias antes da assembleia em que foi apresentada proposta de renegociação das dívidas com os produtores, o juiz Angelo de Almeida decretou a prisão preventiva de Elvis Faleiros. Segundo o despacho, a medida visava “a garantia da ordem pública e econômica e por conveniência da instrução criminal”.

Almeida decretou o sequestro, arresto e indisponibilidade dos bens de Faleiros e dos outros dois diretores, da Cocapil e das empresas investigadas até o limite de R$ 50 milhões, bem como expediu mandado de busca e apreensão na sede da cooperativa. Após a decisão, o processo passou a tramitar em sigilo por determinação do próprio Almeida.

O que diz a defesa de Faleiros

O advogado criminal Marcio Cunha, que representa os três investigados da cúpula da diretoria da Cocapil, informou ao The AgriBiz que Elvis Faleiros “já entregou à autoridade policial seu passaporte, já realizou o pedido de “habeas corpus junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e aguarda decisão efetiva sobre a revogação da prisão preventiva decretada”. Faleiros foi orientado a não se apresentar para cumprir o mandado de prisão.

“O Sr. Elvis e a sua defesa técnica consideram que a ordem de prisão foi totalmente desnecessária, pois em nenhum momento o Sr. Elvis se furtou a prestar esclarecimentos ou a colaborar com cooperados e credores. Ressalte-se que até o dia anterior à determinação da prisão cautelar o Sr. Elvis sempre esteve presente na Cocapil e estava atuando ativamente na condução de um plano estruturado de pagamento, mantendo diálogo aberto e buscando soluções concretas para a quitação dos débitos”, informou Cunha.

Por meio do advogado, Faleiros e os diretores Guilherme Andrade Clausing e José Ivano Bruziquesi Neto informaram que o endividamento teve origem, principalmente, nas operações de travas de café realizadas entre 2018 e 2021.

Eles admitem que o crescimento do passivo decorre de “erros da administração”, principalmente da entrega de café aos exportadores e da realização de exportações com preços fixos e baixos, firmadas antes de 2020 para entregas até 2021. Segundo eles, as entregas futuras, com prazos médios de três a cinco anos, foram travadas em preços médios de R$ 500,00 a R$ 700,00 a saca para aproximadamente 70 mil sacas de café.

“Entretanto, desse volume contratado foram efetivamente entregues apenas cerca de 17 mil sacas. Isso ocorreu porque grande parte dos contratos firmados com produtores era feita de forma verbal, e, embora existissem instrumentos contratuais formais, muitos não chegaram a ser assinados”, relataram.

De acordo com o relato feito por meio do advogado, “fatores extraordinários, como pandemia, geadas e períodos de seca”, impactaram a produção e provocaram a disparada no preço do café, que passou dos patamares de R$ 500,00 a R$ 700,00 negociados, para valores superiores a R$ 2.500,00, chegando a R$ 3.000,00 por saca.

“Diante desse novo cenário, muitos produtores optaram por não entregar o café contratado. Ao mesmo tempo, a Cocapil passou a sofrer forte pressão por parte dos exportadores, que sinalizaram a possibilidade de ações judiciais e pedido de arresto do café existente em estoque em caso de inadimplemento”, informou. 

“Para evitar essas medidas e honrar os compromissos assumidos com os exportadores, a Cooperativa decidiu entregar café próprio e de estoque, o que resultou diretamente na formação do passivo financeiro atual”.

Cunha confirmou também que o valor total do passivo da Cocapil “é da ordem de R$ 100 milhões”, incluindo, além das dívidas com produtores, um passivo com instituições financeiras. 

Para resolver a crise, a cooperativa pretende priorizar o pagamento dos cooperados, por meio da venda de propriedades e ativos. Em relação às tradings, fornecedores e bancos, a estratégia será a renegociação das dívidas, buscando acordos e alongamento de prazos.

Ainda de acordo com o advogado, a ordem de prisão contra Elvis Faleiros “acabou produzindo efeito contrário ao interesse dos credores, uma vez que se interromperam as negociações avançadas para a venda de propriedades e ativos, que seriam diretamente destinados ao pagamento das dívidas”, informou.

“Com isso, a ordem de prisão não contribuiu para a recuperação dos valores, apenas atrasou o processo de pagamento e dificultou a resolução do passivo”, concluiu.

Negociação

Na assembleia de 24 de dezembro, a Cocapil informou que 177 produtores teriam a receber um total de R$ 45,218 milhões e informou que a dívida bancária superaria R$ 60 milhões. Os representantes da diretoria apresentaram, em um telão, uma proposta com sete faixas de pagamento. A amortização seria escalonada e parcelada, de acordo com o número de sacas depositadas na cooperativa.

Para os produtores com até 20 sacas, o pagamento seria à vista após a aprovação do plano. Nessa primeira faixa, 52 produtores teriam direito a um total de R$ 923.160, segundo a planilha apresentada. As três faixas seguintes, para até 50, até 100 e até 200 sacas, preveem o pagamento em duas vezes, com, respectivamente, entradas de 80%, 70% e 50% e o restante amortizado em setembro de 2026.

Para as três últimas faixas, de até 500 sacas, até 1.000 sacas e acima de 1.000 sacas depositadas, a proposta prevê pagamentos em três vezes, com entradas de 25%, 20% e 15%, respectivamente, e pagamentos dos valores restantes em setembro de 2026 e 2027. O plano de reestruturação não foi votado pelos produtores e representantes de cafeicultores presentes na reunião.

Entre eles estava João Roberto Jacinto. Segundo o advogado, filho de cafeicultor e especialista em mercado e agronegócios, além da questão do endividamento e do processo que culminou na ordem de prisão contra o presidente da Cocapil, há dúvidas sobre os balanços da cooperativa. 

Em ata registrada em 12 de junho de 2025 na Junta Comercial de Minas Gerais relativa à assembleia do dia anterior, foram apontadas sobras (correspondentes ao lucro de uma cooperativa) de R$ 33.586.714,68 em 2024. Esse valor seria destinado à reserva da Cocapil. “Mas, segundo a condução da assembleia, houve prejuízo em 2024, que teria aumentado em 2025”, afirmou.

De acordo com Jacinto, a crise da Cocapil em um município que está entre os maiores produtores de café arábica do Brasil “abala as relações de confiança e de credibilidade que podem afetar outras cooperativas e desestruturar o mercado de forma geral”.

Uma nova tentativa de negociação já tem data marcada. De acordo com edital publicado na última terça-feira, 30 de dezembro, uma assembleia extraordinária convocada pelo próprio presidente Elvis Faleiros está marcada para dia 24 de janeiro, a partir das 8 horas, para “aprovação ou não do plano de pagamento apresentado aos cooperados na assembleia geral extraordinária de 24/12/2025”. Segundo o documento, são 621 cooperados ativos.