Balanço

Por que a ressaca da Lavoro vai ser mais longa — e o trunfo para superá-la

El Niño frustrou os planos, adiando a normalização dos estoques e prejudicando o pacote tecnológico da safrinha de milho.

A digestão da crise da agricultura brasileira vai demorar mais tempo do que a Lavoro imaginava. Na maior rede de revendas agrícolas do país, o tenebroso El Niño enterrou as esperanças de quem imaginava que a safra 2023/24 seria de estoques equalizados e preços dos insumos em recuperação.

No balanço trimestral que divulgou ontem à noite, após o fechamento da Nasdaq, a Lavoro cortou as projeções para o Ebitda — um indicador que mede o resultado operacional — esperado ao longo da safra 2023/24, que começou oficialmente em julho.

Até o início de novembro, quando divulgou as primeiras projeções, a gigante de revendas agrícolas controlada pelo Pátria esperava que o Ebitda da safra ficasse entre US$ 135 milhões e R$ 165 milhões.

Diante do quadro climático que se agravou de lá para cá, a companhia reviu a projeção. Agora estima que o Ebitda fique entre US$ 80 milhões e R$ 110 milhões. No ponto médio da faixa, significa uma redução de impressionantes 36%. Na prática, as novas projeções sugerem uma margem próxima de 4,5%.

“Vimos um El Niño disruptivo. Uma seca severa, inclusive em Mato Grosso, atrasou o plantio da soja e criou desafios para a safrinha. Esse impacto deve aparecer nos resultados do segundo e terceiro trimestre”, disse o CEO da Lavoro, Ruy Cunha, em uma teleconferência com analistas e investidores.

Pacote tecnológico

Como já é sabido, a falta de chuvas em Mato Grosso — especialmente em novembro — castigou a safra em várias regiões, provocando o replantio de soja ou mesmo a troca para o cultivo de algodão. Com isso, a janela para o plantio do milho safrinha ficou muito apertada, reduzindo o apetite dos agricultores.

Na Lavoro, isso vai se traduzir em uma piora no pacote tecnológico vendido aos agricultores que vão semear milho na safrinha. Vendo as margens já apertadas e diante de um risco climático maior por causa da janela apertadíssima, os agricultores vão gastar menos com insumos.

Pulverização da Lavoro

Um dos principais impactos vai se dar nas vendas de sementes, um dos insumos que mais gera retorno para as revendas agrícolas. Em geral, as melhores margens dos distribuidores de insumos estão nas especialidades (biológicos e adubos especiais) e nas sementes. Fertilizantes convencionais e defensivos geram uma margem pequena.

“O que mais impacta é a venda de sementes. Elas têm mais margem que o resto”, explicou Tigran Karapetian, head de relações com investidores da Lavoro, em resposta a uma pergunta de Vincent Anderson, analista da Stifel Nicolaus.

Biológicos também sofrem

Com os produtores mais céticos em investir em tecnologia, as vendas dos insumos biológicos também sofrem, o que pressiona as margens e afeta a CropCare, a divisão da Lavoro que fabrica produtos biológicos e insumos especiais.

No primeiro trimestre da safra, a CropCare fez uma receita de US$ 35,7 milhões (queda de 1%), com uma margem Ebitda de apenas 5,6%. No mesmo trimestre da safra anterior, por exemplo, o negócio havia entregado uma margem de 11,8%.

Aos analistas, o CEO da Lavoro tranquilizou o mercado. Apesar do ritmo de adoção mais lento que os biológicos terão na atual safra, essa não é uma tendência estrutural, mas apenas o reflexo de um momento conjuntural mais difícil.

“O nível de adoção dos biológicos na safra de milho vai ser menor do que no ano passado, o que está refletido no nosso guidance”, disse Cunha.

No mercado de biológicos, a Lavoro está longe de ser a única a sentir o impacto do momento mais difícil. Um investidor de uma das maiores companhias de biológicos disse ao The Agribiz que o El Niño foi um detrator de vendas em toda a indústria.

Quando virou setembro, esse investidor estimava que a indústria brasileira de biológicos como um todo faturaria R$ 7 bilhões em 2023, mas esse número ficou mais próximo de R$ 6 bilhões. De certa forma, é o movimento que os resultados da Lavoro ilustram.

Estoques

A situação também fez com que a Lavoro adiasse o início das operações da nova fábrica de biológicos da Agrobiológica, principal negócio da CropCare. Antes, é preciso que os estoques de defensivos no mercado se ajustem. Caso contrário, seria derrubar os preços com mais oferta.

“Temos a fábrica pronta, mas não vamos iniciar a produção até agosto. Vamos adiar alguns custos adicionais relacionados. Esperamos o mercado normalizar para acelerar”, explicou Cunha aos analistas. A nova fábrica foi construída em Itápolis, com um investimento da ordem de R$ 100 milhões.

A cautela para colocar a nova fábrica em operação reflete também a necessidade de prosseguir com o ajuste dos estoques de defensivos químicos, que ainda estão acima do ideal. Ao contrário do que se imaginava anteriormente, esse ajuste ainda não se completou.

Na apresentação aos analistas, a Lavoro relatou que as renegociações com alguns dos maiores fabricantes de defensivos agrícolas estão mais difíceis do que o esperado. Os fornecedores de “tier 1” (supõe-se que sejam Syngenta, Bayer e Corteva) estão mais “relutantes em absorver” o alto custo dos estoques das revendas, disse a Lavoro.

Nesse cenário, o ajuste dos estoques só deve estar completo no fim da safra, com o novo normal entrando em vigor na próxima temporada (2024/25). Em resposta a Ben Theurer, analista do Barclays, Cunha disse que os indicadores de estoques estão melhorando, mas ainda é difícil precisar quanto tempo o ajuste vai levar.

“Quando comparamos janeiro do ano passado com dezembro, vemos um declínio dos estoques. Mas é difícil prever se a normalização vai se dar em três meses ou seis meses. Vamos ter que ver o desenvolvimento da safrinha, assim como as intenções de plantio da próxima safra”, comentou o CEO da Lavoro.

Pelas conversas que a Lavoro vem mantendo com consultores agrícolas, a estimativa da companhia é que os estoques de agroquímicos representem 25% do consumo anual agora em janeiro. Já é melhor que os 35% do fim de 2022, mas ainda acima do nível saudável, de 15%.

Entre os players, há uma diversidade nas estratégias de redução de estoques, com alguns mais adiantados e outros atrasados. Depois de sofrer bastante no ano passado, Agrogalaxy disse em entrevistas recentes que seus estoques representam 15% da demanda dos clientes, um nível adequado.

Companhias como Agro Amazônia (controlada pela japonesa Sumitomo), por sua vez, encaram mais dificuldades nas negociações com grandes fornecedores de defensivos, como Bayer e FMC.

O trunfo da Lavoro

Se o cenário ainda é difícil para quase todos os players, a Lavoro possui um trunfo invejável: a estrutura de capital.

Enquanto concorrentes recorreram a injeções dos sócios (a Agrogalaxy, por exemplo, levantou R$ 150 milhões com o Aqua Capital para não quebrar covenants), a controlada do Pátria possui uma relação entre dívida líquida e Ebtida mais adequada, de pouco mais de 2 vezes.

Na emissão do último CRA (uma captação de R$ 420 milhões), aliás, a Lavoro se comprometeu a manter o indicador em até 2,5 vezes. “A estratégia do grupo é manter a alavancagem em até 2,4 vezes no fim da safra, em 30 de junho”, de acordo com as demonstrações financeiras da companhia.

Com a estrutura de capital de que dispõe, a Lavoro está preparada para atravessar as turbulências mantendo algum apetite por aquisições (a compra da Coram não deixa mentir) e investimentos para ampliar o time de representantes de vendas, os famosos RTVs que rodam o campo.

Recentemente, a Lavoro conseguiu contratar novos RTVs que têm uma carteira potencial de US$ 120 milhões, um montante relevante. Além disso, a situação financeira ajuda a companhia a reter RTVs, com baixa rotatividade.

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Listada na Nasdaq, a Lavoro está avaliada em US$ 937 milhões. Em doze meses, o papel cai 18%.

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Após a publicação desta reportagem, a Agro Amazônia enviou uma nota negando que tenha enfrentado dificuldades nas negociações com fornecedores. Abaixo, o comunicado na íntegra:

“Gostaríamos de esclarecer que graças a sua grande equipe de profissionais qualificados, bem como robustos processos de controle e governança, a Agro Amazônia tem crescido de forma acelerada e ao mesmo tempo entregado aos seus acionistas resultados e índices financeiros positivos, fato que a destaca como uma das empresas mais sólidas do mercado. Portanto, é irreal a colocação feita a respeito do tema em relação aos fornecedores citados, ou a qualquer outro parceiro de nossa empresa”.