Inovação

Agricultura regenerativa, que bicho é esse? O desafio das startups

Empreendedores relatam que ainda existe bastante dúvida no campo sobre o que é agricultura regenerativa

Que a agricultura regenerativa ganhou um status especial na agenda das companhias que se relacionam com os produtores rurais, é inegável. As definições do conceito, no entanto, ainda não são exatamente conhecidas — mesmo entre os players do setor. Afinal, o que é agricultura regenerativa?

Até onde se sabe, o conceito foi citado pela primeira vez em 1989 pelo Rodale Institute, nos Estados Unidos. No centro do conceito está o solo, com a adoção de práticas para melhorar sua saúde, o que inclui cuidar da microbiota e do ciclo da água.

Em tempos de mudanças climáticas, a qualidade do solo será fundamental para a resiliência da agricultura. Não à toa, a agricultura regenerativa tem tudo para ser a melhor aliada dos produtores rurais. E não só deles: as startups também estão de olho.

Mas nem tudo é tão simples. Empreendedores das agtechs com quem tenho a oportunidade de interagir quase que diariamente relatam que ainda existe bastante dúvida no campo sobre o conceito, com produtores confundindo agricultura regenerativa com agricultura orgânica ou até mesmo com o manejo de aplicação de biológicos.

Agricultura regenerativa

Estimativas de mercado dão conta de que no Brasil há cerca de 3,5 milhões de hectares com práticas que possam ser enquadradas no amplo conceito da agricultura regenerativa, o que ainda é pouco se compararmos aos mais de 60 milhões de hectares plantados no país — uma oportunidade emergente e de crescimento em potencial.

Para atrair o agricultor, não basta falar a palavra da moda. É preciso educar o mercado. A agricultura regenerativa não é uma ferramenta específica, mas uma abordagem holística dos sistemas de produção, porque não são uma ou duas práticas bem-feitas que vão mexer o ponteiro das propriedades.

Fazer o plantio direto corretamente é um dos elementos, aplicar microrganismos benéficos pode ser outro, semear plantas de cobertura um terceiro, minimizar a perturbação do solo mais um, incorporar biodiversidade, e assim por diante.

Na abordagem aos agricultores, o benefício é central no pitch das startups. “Eu não gosto de falar em sacas, em toneladas, porque tem muita variabilidade no campo, mas já temos muita segurança para falar de consistência e rentabilidade para o agricultor”, conta Marcos Petean, CEO da Gênica, uma das principais startups de biológicos do país.

Mas uma dor também tem unido os produtores. Para Emily Leite, da MyEasyFarm, o desafio é comprovar que as práticas realizadas a campo impulsionam a agricultura regenerativa.

Em meio à pressão — sobretudo internacional — o setor produtivo do Brasil está atento à necessidade de monitorar seu impacto ambiental e rastrear a origem da sua produção, não somente para manter a perenidade dos negócios, mas garantir a competitividade.

Com um software de agricultura de precisão, a MyEasyFarm — uma startup francesa — mensura quanto mais uma fazenda está avançando em termos de produtividade em relação a safras históricas e como tem evoluído na base do carbono ao longo do tempo.

A necessidade de “se provar” vem de todos os lados, e ainda mais das propriedades que adotam certificações internacionais, lembra Diro Hokari, fundador da mineira Solusolo. “Eu noto que mesmo entre produtores que já estão habituados com os processos exigidos pelas certificadoras, a adoção tem sido mais fácil.

No meio desses desafios, as agtechs e startups que buscam trabalhar com a agricultura regenerativa estão se abrindo a parcerias, como ilustram os exemplos da Gênica em  conjunto com a B4A e com a AgroAdvance, em um esforço para melhorar a educação do produtor sobre o tema.

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As discussões sobre o ecossistema de startups e os desafios da agricultura regenerativa fazem parte do PwC Agtech Innovation Podcast, que está de volta com a Série Mercados de Tecnologia no Agro agora em 2024.

Para quem quiser conferir, ficam os links — para ouvir ou assistir o episódio de Agricultura Regenerativa e conferir a primeira temporada completa (em que falamos de foodtechs, startups da floresta, marketplaces do agro, startups da pecuária e vários outros mercados de tecnologia do setor).

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Marina Salles, colunista de The AgriBiz é editora-chefe de conteúdo do PwC Agtech Innovation, hub especializado no agronegócio. Há 10 anos, cobre o mercado de tecnologia no setor, tendo passagem por grandes veículos de imprensa, como PEGN, Globo Rural, Revista DBO e Valor Econômico. Formada pela USP, atualmente cursa MBA em Marketing na ESALQ.