Ana Carolina Zimmermann, produtora rural em Goiás, em painel no Fórum Econômico de Davos | Crédito: Arquivo pessoal
Ana Carolina Zimmermann, produtora em Goiás, participa de painel sobre segurança alimentar no Fórum Econômico Mundial | Arquivo pessoal

Num dos raros painéis sobre agricultura no Fórum Econômico Mundial, realizado no mês passado em Davos, na Suíça, uma jovem produtora do Cerrado brilhou.

A uma plateia pouco (ou nada) familiarizada com o agro, a goiana Ana Carolina Zimmermann apresentou os problemas enfrentados diariamente por quem produz alimentos: risco climático crescente, falta de infraestrutura, pressão por maior produtividade.

Ao lado de formuladores de políticas públicas para o setor, como o presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD), Álvaro Lara, e do vice-presidente da Nigéria, Kashim Shettima, Zimmermann destacou que cuidar dos agricultores é condição básica para garantir segurança alimentar. E alertou: “Não podemos colocar todo o risco, toda a dívida e toda a responsabilidade sobre o agricultor”.

Ana Carolina Zimmermann é produtora rural na Fazenda Ribeirão, em São João da Aliança (GO), além de conselheira do grupo agropecuário JLS Agro, que cultiva cerca de 20 mil hectares no estado, e da revenda de insumos Charrua — ambos negócios da família.

Aos 31 anos, ela tem formação de sobra: é engenheira de produção pela Universidade de Brasília (UnB), com especialização em agronegócios e gestão de projetos pela Esalq-USP. O currículo poderia abrir portas em qualquer grande empresa, mas ela preferiu ficar no campo — o que gerou a curiosidade do mediador do painel, Sam Kass, sócio da Acre Venture Partners e ex-assessor da Casa Branca para políticas de alimentação. Nos Estados Unidos, a permanência das novas gerações no campo é muito menor.

Ao ser questionada por Kass sobre como atrair os jovens para a agricultura, ela disse que é preciso criar um ambiente onde as pessoas queiram estar — o que vai desde condições básicas de saúde e transporte (o que se aplica especialmente ao Brasil) a propósito.

Ana Carolina Zimmermann, produtora rural

Desde 2022, Zimmermann faz parte do Nuffield, um programa internacional de formação de executivos no agro. Também é membro do FMC for Food (First Movers Coalition), uma iniciativa do Fórum Econômico Mundial que visa acelerar a transição para um modelo de produção de baixa emissão — veio daí o convite para participar do evento, inclusive.

Em Davos, esbanjou um inglês impecável para defender o ponto de vista dos agricultores nas cadeias de valor. “Carregamos todos os ônus. Não sabemos como o clima vai se comportar — e precisamos lidar com isso. Somos tomadores de preço: não controlamos o valor dos insumos e nem do que vamos vender”, disse ao lado do CEO global da Yara, Svein Tore Holsether, outro participante da mesa. “Basicamente, precisamos rezar para que tudo dê certo”, emendou.

Num painel que tinha a segurança alimentar como principal tema, Zimmermann destacou a necessidade de resolver os problemas dos agricultores, como a falta de infraestrutura ou de acesso à internet, para chegar à solução na ponta.

“Se não nos importamos com os agricultores, como poderemos lidar com os problemas de segurança alimentar? Cuidar dos agricultores é cuidar da segurança alimentar. Deveríamos colocar as pessoas antes, e depois pensar como podemos resolver as coisas juntos”, disse.

Do Sul para o Cerrado

A jovem usou a história da própria família para mostrar à plateia a relevância do agronegócio para os brasileiros. Seu pai, Sérgio Zimmermann, migrou há décadas do Rio Grande do Sul para o Cerrado, onde começou a empreender no setor de distribuição de insumos e, depois, começou a plantar.

“Hoje eu só estou aqui, posso falar inglês, porque de alguma forma a agricultura mudou a vida da nossa família. E eu vejo isso acontecendo nas vidas de outras pessoas também”, disse.

Articulada, a goiana encarna uma nova geração de produtores rurais que rejeita o papel passivo normalmente reservado ao campo nos debates globais. “Se não estivermos à mesa, nós vamos estar no menu. E não queremos estar no menu sendo escolhidos. Queremos estar à mesa dialogando, porque somos parte dos problemas, mas também somos parte das soluções. E queremos ser”, afirmou.

“Nesse mundo polarizado, em que ambientalistas não dialogam com agricultores e as pessoas em geral não conversam, o que eu peço a todos vocês, especialmente CEOs, líderes e formuladores de políticas, é que convidem os agricultores a cocriar esses diferentes sistemas alimentares nos quais estamos dispostos a colaborar.”

E emendou: “Precisamos cooperar, trabalhar juntos e ter as conversas difíceis necessárias para encontrar maneiras de colaborar, em vez de simplesmente transferir todo o ônus para os agricultores. Caso contrário, a agricultura não será viável e a segurança alimentar estará comprometida.”

Enfim, um lugar à mesa

Meses antes, a produtora passou mensagem semelhante na COP30, onde também participou de debates e destacou a necessidade de se remunerar o agricultor pela preservação ambiental.

Em entrevista ao The AgriBiz na semana passada, Zimmermann disse que os produtores estão começando a conquistar o tão desejado lugar à mesa — também porque estão mais abertos para isso. “Sinto que os produtores rurais estão intencionando sair da estratégia de embate e adotar uma estratégia mais de abertura, de mostrar o que estão fazendo”.

A nova geração vem para ajudar na comunicação, ela diz. “Existe um problema de linguagem muito grande. A linguagem ESG, por exemplo, tem um lado político. Mas, quando você traduz para a linguagem do produtor, muitas vezes estamos falando das mesmas coisas. E eu acho que as novas gerações conseguem transitar melhor entre essas linguagens e contextos diferentes”, analisa.

“A estratégia mais adequada para conseguirmos ser efetivos em comunicar as nossas mensagens é furar as bolhas. E entender que não precisa ser tudo polaridade. Não é “nós versus eles”, “isso ou aquilo”. Podemos ter meios do caminho para encontrar soluções juntos.”