
A disparada do cacau ficou para trás, mas as sequelas sobre o consumo de chocolates no Brasil ainda não se dissiparam, o que explica a forte queda na moagem da amêndoa no País.
No ano passado, as indústrias brasileiras moeram 195,8 mil toneladas de cacau, uma queda expressiva de 14,5%, mostram os dados divulgados nesta semana pela AIPC (Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau).
“A partir do final de 2024, a indústria precisou aumentar os preços. Com isso, a demanda pelo chocolate caiu, e ainda não se recuperou”, disse a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi.
As indústrias — tanto as moageiras, que transformam as amêndoas em pó, manteiga e pasta de cacau, quanto as chocolateiras, que processam alguns desses subprodutos em chocolate — ainda têm muito “cacau caro” no estoque, o que é um problema para o consumo.
Um detalhe curioso: mesmo com a demanda machucada, o Brasil ainda importou muitos derivados de cacau. Segundo a associação, a indústria aumentou as importações de cacau em 65,2%, para 42,1 mil toneladas, segundo a associação.
Apesar de contraintuitivo, há uma lógica nesse movimento. “Como a gente não produz cacau na quantidade suficiente para atender o mercado nacional, mesmo com a queda da demanda foi necessário importar derivados”, explica Losi.
Por ano, a utilização de cacau pela indústria no Brasil é estimada em 300 mil toneladas. “Se contássemos apenas com o cacau que o Brasil oferece, a queda na moagem teria sido ainda maior”, ressaltou Losi.
O intrincado (des)equilíbrio cacaueiro
No intrincado equilíbrio do mercado de cacau, o Brasil é ao mesmo tempo produtor, importador e exportador da commodity. Isso se explica, de um lado, pela ociosidade que se abateria sobre a indústria local caso só pudesse contar com o cacau produzido no País.
Por outro lado, pesa na balança uma ferramenta do governo brasileiro para estimular a industrialização e as exportações: o regime de drawback, que dá isenções sobre impostos como IPI, PIS e Cofins para importações destinadas à industrialização e posterior venda ao exterior.
Com isso, as indústrias moageiras e as chocolateiras conseguem reduzir sua ociosidade e ainda incrementam o faturamento com exportações, atendendo a demanda de compradores próximos, como Estados Unidos, Argentina e Holanda.
“A importação de amêndoas e a exportação de derivados são fundamentais para a indústria brasileira. E vai ser assim enquanto o País não for autossuficiente em cacau”, diz Losi.
Por outro lado, só faz sentido importar especificamente para industrializar e exportar, não para vender no mercado interno — nesse caso, o benefício fiscal seria anulado.
Safra melhor em 2026, mas o suficiente?
Com relação às perspectivas para 2026, Losi diz que os primeiros sinais são positivos. Ela acrescenta que o preço, o principal vetor para uma inflexão da tendência de queda na demanda, pode cair caso a perspectiva de safras positivas no Brasil e no mundo se concretize.
“A gente tem visto as cotações caindo. A ver o quanto isso reflete em uma retomada do consumo de chocolate e da demanda por derivados. Com safras melhores, pode haver um ponto de equilíbrio em que o preço do cacau seja justo para o produtor, mas não inviabilize o consumo.”
Losi também vê uma economia mais aquecida como fator de estímulo à demanda por cacau.
“A instabilidade impacta o cacau, que é supérfluo, o primeiro a ser reduzido ou cortado por uma família quando há uma crise. Mas os países parecem economicamente melhores, e isso também pode impactar positivamente a demanda”.