As usinas citadas na megaoperação “Carbono Oculto”, deflagrada ontem por uma força-tarefa com diversos órgãos federais e estaduais, respondem por apenas 2,5% de moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul.
E, mesmo que essas plantas passem por interrupções parciais ou totais em meio às investigações, o volume delas pode ser absorvido por outras usinas nas localidades, atenuando potenciais danos sobre as ofertas de açúcar e etanol.
A avaliação é dos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual.
Em relatório divulgado nesta sexta-feira, eles detalham que as usinas citadas nas investigações de envolvimento do crime organizado no setor sucroalcooleiro “moem cerca de 16 milhões de toneladas de cana por ano, o que representa 2,5% do volume total na região Centro-Sul”.
Segundo os analistas, “o impacto sobre a oferta de açúcar e etanol no Brasil e sobre a dinâmica da competição entre usinas dependerá de como as investigações afetarão a capacidade dessas empresas de manter suas atividades”.
Lembrando que a região está no pico da safra, o banco pontua que o esperado seria que as investigações impactassem o ritmo de moagem nessas usinas.
No entanto, ressalvam os analistas, “considerando a localização dessas unidades — principalmente em São Paulo e Goiás, onde existem muitas outras usinas —, parte dessa cana pode ser processada por usinas próximas”.
Duarte e Guttilla prosseguem lembrando que nos últimos anos houve especulações de ilegalidades no setor sucroenergético, com danos às indústrias atribuídos a atividades criminosas.
No ano passado, parte dos incêndios que danificaram parcelas consideráveis de canaviais de empresas como a Raízen e a São Martinho foi atribuída ao crime organizado. “Mais recentemente, algumas cargas de açúcar teriam sido contaminadas com areia”, dizem os analistas.
Segundo eles, “a escala da operação aumentou as expectativas de que esses problemas sejam enfrentados daqui para frente”. Por isso, o banco manteve a recomendação de compra para o setor.
A investigação
Tida como a maior investida da história contra o crime organizado no Brasil, a operação é uma ação conjunta da Polícia Federal com o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a Receita Federal e as polícias militares dos Estados envolvidos.
O objetivo é desmantelar a infiltração do PCC na cadeia de combustíveis, em um esquema que envolvia lavagem de dinheiro com envolvimento de instituições financeiras.
A operação envolveu 200 mandados de busca e apreensão contra 350 alvos em dez Estados. Na Faria Lima, implicou empresas como a Reag, com mais de R$ 200 bilhões sob gestão.
De acordo com as investigações, que teriam nascido a partir de denúncias de produtores e usineiros, empresários do setor foram coagidos a vender usinas para a facção — em alguns casos, em meio a problemas financeiros e processos de recuperação judicial.
Segundo informações do Valor Econômico, que teve acesso ao processo, o empresário Mohamad Hussein Mourad, que teria relações com o PCC, comprou as usinas Itajobi e Carolo para usá-las em um esquema de “fraudes fiscais estruturadas” e lavagem de dinheiro.
Ainda de acordo com as apurações, o PCC também adulterava combustíveis com metanol e pode estar por trás dos incêndios em canaviais no ano passado.
A Receita Federal anunciou que estava tomando o controle de algumas usinas para evitar a comercialização de combustíveis adulterados.
A investigação foi recebida com elogios e apoio pelas entidades que representam o setor, como a Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) e a Unem (União Nacional do Etanol de Milho), entre outras.