Soja | Crédito: Schutterstock

O produtor brasileiro de soja está mais espremido do que nunca. A situação na safra 2024/25 já estava longe de ser folgada, com uma margem líquida em torno de 4% (sem considerar arrendamentos). Neste ano, a conta está ainda mais apertada: o produtor deve ter uma margem entre 2% e 3%, a menor desde pelo menos 2010, segundo Carlos Cogo, um dos analistas mais respeitados deste mercado.

Alguns fatores justificam a piora. A expectativa de uma safra de soja acima de 180 milhões de toneladas, renovando recordes, ajuda a sustentar os preços em patamares baixos — a exemplo do ano passado. A diferença é que, neste ano, o cenário para prêmios nos portos e para o dólar é bem diferente do que se viu em 2025, jogando o resultado do produtor brasileiro para baixo.

No ano passado, o primeiro de Donald Trump em seu segundo mandato, a guerra comercial entre Estados Unidos e China trouxe um impulso aos prêmios da soja nos portos brasileiros — em um período tradicional de baixa, dado o início da colheita.

Com o fim desse cenário, a situação se inverteu. O prêmio nos portos brasileiros caiu de 62 centavos de dólar por bushel, há um ano, para cerca de 10 centavos de dólar atualmente, segundo dados citados pelo especialista.

“Só aqui já é meio dólar de perda. O prêmio vai zerar em breve, gerando um fator adicional de pressão ao produtor”, afirmou Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência de Mercado, em entrevista ao The AgriBiz.

Além do início da colheita no Brasil, também contribui para jogar os prêmios para baixo o cumprimento da cota de compra de 12 milhões de toneladas de soja pela China, a partir de um acordo firmado com os Estados Unidos.

“Na safra 2025/26, são 20 milhões de toneladas. Isso deixa a cotação da soja relativamente fortalecida. Mas, no Brasil, a queda do dólar e o recuo do prêmio fizeram com que essa alta não chegasse até aqui. O preço está andando de lado”, explicou Cogo.

Não há sinal, ao menos por enquanto, de que a situação vai arrefecer. Nos próximos meses, a perspectiva de aumento de oferta e de ritmo de embarques também deve pressionar os fretes em curto prazo — mais um fator baixista para o produtor, ainda que sazonalmente computado.

“No final do mês, teremos outra notícia, que é a primeira estimativa de safra nos Estados Unidos. Muito provavelmente, vai trazer a informação de que o americano vai aumentar área de soja e diminuir a de milho, reforçando um viés de baixa nas cotações”, completa.

À espera de um milagre

Em meio a esse cenário nada animador, o produtor segue segurando a soja. De acordo com a consultoria Safras & Mercado, apenas 34% da produção estimada para a safra 2025/26 foi comercializada até 6 de fevereiro — uma queda de dez pontos percentuais em relação à média dos últimos cinco anos, de 45%. No mesmo período do ano passado, 42% da produção havia sido vendida.

Mesmo em Mato Grosso, onde a comercialização costuma ser mais antecipada, o ritmo é mais lento: os dados mais recentes apontam que 49% da produção foi vendida, abaixo dos 52% na média de cinco anos.

Com essa demora, o produtor está deixando dinheiro na mesa. Enquanto a saca de soja era negociada entre R$ 110 e R$ 115 no estado, hoje o preço está em R$ 104.

“Vemos o produtor numa encruzilhada para comercializar. Ele precisa de espaço para armazenar e fazer caixa, enquanto a pressão de preços aumenta”, afirmou Cleiton Gauer, superintendente do IMEA.

O único alento para o produtor, ponderou Gauer, é o maior rendimento, pelo menos em Mato Grosso. “Ele vai ser agraciado por uma produtividade maior que o esperado.”