Caminhões de grãos; ANTT deve revisar preços mínimos de frete

PIRACICABA (SP) – O avanço na colheita de soja da safra 2025/2026 em Mato Grosso, maior produtor do País, para o maior nível em uma década, puxou o preço dos fretes entre 15% e 20% em janeiro e contribui para mudar o cenário do setor ao longo do ano.

As tarifas devem permanecer elevadas durante toda a safra, com valores em média 8% mais elevados no País, mas sem os fortes picos como os ocorridos a partir de fevereiro de 2025. Os dados são do Esalq-Log (Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial).

Com 25% da colheita realizada até o final do mês passado, ante 12% em igual período de 2025, a oferta de soja das lavouras mato-grossenses contou com ajuda do plantio na época certa e do clima favorável em 2025/2026 para chegar rapidamente aos caminhões rumo aos portos. Com isso, os fretes avançaram rapidamente no começo de 2026.

Além do avanço da colheita, o reajuste ao longo do ano será puxado principalmente pela maior oferta de soja — estimada em 4%, para até 180 milhões de toneladas em 2025/2026 — e pela alta prevista de 5% no piso mínimo para o modal rodoviário, com aumento na fiscalização para o cumprimento desses preços-base.

Depois da alta em janeiro, os preços médios dos fretes para grãos devem saltar até 20% em fevereiro em algumas praças, na avaliação do ESALQ-LOG. Até meados deste mês, a colheita em Mato Grosso pode superar 70% da área plantada.

“O ano passado ficou marcado pela concentração da colheita em fevereiro, com picos e fretes elevados a partir daquele mês”, afirmou Fernando Pauli de Bastiani, pesquisador do ESALQ-LOG, durante o “Café da Manhã com Logística”, evento anual da consultoria realizado nesta terça-feira, em Piracicaba (SP).

“Apesar de os picos de preços terem variações menores que em 2025, teremos um patamar elevado nos fretes por mais tempo”, acrescentou. A alta deve ser freada apenas pelo preço dos combustíveis, que segue com perspectiva de estabilidade ao menos no curto prazo. 

No lado da oferta, o patamar de preço elevado no frete deverá ser pulverizado por outras regiões produtoras, como no Rio Grande do Sul, que deve retomar o posto de segundo maior produtor de grãos com o bom desenvolvimento nas lavouras de soja, Paraná, cuja colheita, atrasada, deve ser normalizada em fevereiro, e Bahia.

Além disso, a safra de inverno de milho terá uma janela ideal para o plantio. A colheita deve repetir o volume do ano passado e beirar 140 milhões de toneladas, o que manterá o preço do transporte sustentado. 

Menor demanda no açúcar

Por outro lado, outros setores demandadores de frete devem ter menor procura para este ano, como o sucroenergético e o de fertilizantes. Com uma queda 35% no preço do açúcar entre janeiro de 2025 e 2026, a oferta de commodity deve ser menor na próxima safra de cana-de-açúcar a partir de abril, o deve frear o preço do transporte. 

Com a moagem estável e prioridade pelo etanol, cujo transporte conta também com modais dutoviário e ferroviário, os custos dos fretes devem ser menores este ano no setor, segundo os pesquisadores do ESALQ-LOG. 

No caso dos fertilizantes, os preços dos grãos derretendo têm trazido uma relação de troca negativa entre grãos e esses insumos para o produtor, o que pode pressionar a demanda do longo do ano pelo transporte. 

Preço mínimo

O diretor do ESALQ-LOG, Thiago Guilherme Péra, destacou o aumento da fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) sobre o piso mínimo do frete rodoviário como o principal fator adicional deste ano para pressão nos valores do transporte por caminhões. 

Desde outubro do ano passado, com a adoção da fiscalização eletrônica dos preços dos fretes, as multas da ANTT sobre o setor dispararam. 

Dados da ANTT apresentados pelo diretor do ESALQ-LOG mostram que o número de autuações pelo descumprimento do piso mínimo saiu de menos de 5 mil por ano em 2023 e 2024, para mais de 66 mil em 2025, com o fim da fiscalização manual.

“Só em janeiro de 2026, o total superou 35 mil com a fiscalização mais atuante e já foi mais que a metade de todo o ano passado. E a informação da ANTT é que 30% de todas as multas do órgão sejam relativas ao frete”, concluiu Péra.