
Uma das fronteiras com maior potencial transformador na bioeconomia circular é também uma das mais polêmicas: o reuso agrícola do lodo de esgoto. Mas pesquisadores da Unesp estão tentando quebrar esse tabu.
Segundo um trabalho recente desenvolvido na universidade paulista, o lodo de esgoto, também conhecido como LE, traz diversos benefícios à agricultura. Além de aumentar a matéria orgânica do solo, ele tem um efeito nutricional nas plantas, fomentando o crescimento.
O material permite até a substituição de parte dos fertilizantes minerais, ao contribuir com elementos como macro e micronutrientes de plantas, por exemplo, nitrogênio e fósforo. E sem o risco de contaminação por metais pesados e patógenos, como evidenciam estudos de longo prazo.
“Os solos brasileiros são antigos e altamente intemperizados, e podem se beneficiar. Faz mais sentido que destinar a aterros sanitários, onde o lodo pode causar poluição, como emissão de gases causadores de efeito estufa, geração de odor e contaminação de lençóis freáticos por meio da produção de chorume”, explica Thiago Assis Rodrigues Nogueira, professor da Unesp.
Desde 2016, Nogueira coordena estudos sobre o uso agrícola do lodo — o mais recente teve a participação de alunos do Grupo de Estudos em Nutrição, Adubação e Fertilidade do Solo (Genafert) da universidade.
Nos últimos anos, diversas iniciativas de circularidade surgiram mirando resíduos da atividade agroindustrial. Em outros casos, a ideia é reusar restos de outras cadeias e processos para evitar descartes com alta emissão. É esse o caso do lodo de esgoto.
Mas hoje, no Brasil, apenas uma pequena parte do lodo coletado é reutilizada na agricultura — as estimativas oscilam entre 3% e 15% do total.

Um estudo iniciado em 1997 em Jaboticabal (SP) para monitorar o uso do lodo no milho evidencia que, mesmo após 29 anos de uso, os teores de metais pesados permaneceram baixos, de acordo com Nogueira.
Segundo ele, as pesquisas demonstram potencial em diversas culturas, mas o lodo in natura faz mais sentido em lavouras como cana, café e eucalipto, que não requerem contato direto recorrente com o ser humano. Além disso, quando o lodo é compostado, elevando a temperatura do material, são eliminados patógenos, garantindo segurança.
Tabu é principal entrave
Em uma distinção importante, Nogueira explica que o que tem potencial de uso no campo é o lodo coletado, tratado e transformado em subproduto organomineral ou composto à base de lodo.
Mas mesmo com esse e outros entendimentos, a principal razão para a baixa aderência, segundo o pesquisador, ainda é o preconceito.
“Em uma palestra recente, perguntei se o pessoal comeria um bolo feito de milho produzido com uso de lodo de esgoto. Muita gente manifestou rejeição”, ilustra. “É uma pena termos um produto tão rico e as pessoas terem preconceito. Enquanto isso, as grandes empresas nadam de braçada vendendo fertilizantes.”
Para contornar a ojeriza, ele diz, iniciativas no Brasil e no mundo têm tentado atribuir outros nomes ao material.
“Algumas empresas têm mudado o nome, como um pessoal de Jundiaí (SP) que usa ‘Terabase’, ou empresas americanas que chamam de ‘biossólido’. Se usar ‘lodo de esgoto’, ninguém compra.”

O próprio pesquisador também prefere chamar os resíduos de “fontes alternativas de nutrientes para a agricultura”.
Segundo ele, outro fator que impede que o Brasil alcance o patamar de referência no assunto, como Dinamarca, Espanha, Estados Unidos e França, é a amplitude do saneamento básico nesses países.
Já no Brasil, em histórica carência, 90 milhões de pessoas ainda não têm coleta. “Com esgotos a céu aberto caindo diretamente na rede, nosso lodo é mais pobre. Chegam às estações de saneamento contaminantes que não deveriam estar lá”, explica Nogueira.
Multifertilizante
Além de dar um destino mais sustentável para o material, o uso no campo tem benefícios diversos, segundo o pesquisador.
“O lodo é um multifertilizante — só não é rico em potássio. Tem nitrogênio, fósforo e micronutrientes, como zinco, cobre, manganês, ferro e boro. Sequestra carbono no solo, reduz a erosão, melhora a nutrição e diminui o uso de fertilizantes minerais, além de ajudar as plantas a reter água, algo importante em tempos de estresse climático.”
Segundo as contas dele, uma vez somadas todas as fontes orgânicas disponíveis na forma de resíduo, incluindo todo o LE no País, seria possível substituir até 3% do consumo de fertilizantes nitrogenados e fosfatados. “Definitivamente, o lodo de esgoto sozinho não vai salvar a agricultura no Brasil”, pondera Nogueira.
Mas a ideia da ciência não é ter manejos integralmente baseados na matéria-prima, e sim usá-la em complementariedade. Assim, o lodo poderia contribuir para o País atingir a principal meta do Plano Nacional de Fertilizantes, de reduzir a dependência externa de 85% para 50% até 2050.
“Nos fertilizantes, o Brasil é muito dependente de países com problemas geopolíticos. Não vamos resolver isso só com o lodo ou outros produtos orgânicos, mas precisamos de tudo o que tivermos ao alcance.”
Ele também vê um catalizador da segurança alimentar em um contexto de crescente população global. “A produção de alimentos precisa crescer absurdamente, e até 50% dos insumos nas lavouras são fertilizantes. Está tudo interligado.”
Além disso, sob a ótica do produtor, tanto o ganho de produtividade quanto a economia de fertilizantes significam renda a mais na mão, ele explica.