Varejo europeu, incluindo Tesco, dá recado às tradings: a moratória da soja continua

O fim da moratória da soja bateu no varejo europeu, que avisa: as suas exigências nas compras de soja livre de desmatamento continuarão as mesmas após o fim do acordo privado firmado há vinte anos por pressão dos mesmos importadores.

Em uma carta enviada nesta segunda-feira aos líderes das principais tradings com atuação no Brasil — ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco —, grupos como Tesco, Sainsbury’s, Marks & Spencer, Aldi, Asda e Morrisons pedem um posicionamento das empresas sobre o seu compromisso com as compras de soja livre de desmatamento na Amazônia.

Na prática, os varejistas estão avisando que passarão a avaliar as empresas individualmente, seguindo os mesmos critérios da moratória da soja, que impedia a comercialização de soja produzida em áreas desmatadas no bioma Amazônia após 2008.

O mesmo documento foi endereçado à Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), que no dia 5 de janeiro confirmou que havia iniciado tratativas para a desfiliação da moratória da soja.

“Estamos profundamente desapontados” com a decisão das tradings e da Abiove de se retirar do pacto voluntariamente, diz a carta dos varejistas europeus obtida pelo The AgriBiz, confirmando informação divulgada primeiro pela Agência Estado.

“Recuar coloca em risco os mecanismos de dissuasão existentes contra o desmatamento, prejudica os esforços futuros para desenvolver acordos colaborativos de proteção, e ameaça os esforços para garantir a sustentabilidade dos seus investimentos na produção brasileira de soja diante da aceleração das mudanças climáticas”, prosseguem os varejistas.

O documento traz 16 de fevereiro como prazo para que as tradings se posicionem sobre três pontos. A primeira pergunta é se a companhia pretende aderir novamente à moratória da soja de forma voluntária.

Na segunda questão, os varejistas perguntam se os compromissos climáticos e de desmatamento permanecem inalterados e se a data de corte de 2008, imposta pela moratória, segue válida.

Por fim, os importadores exigem das tradings a descrição de seus controles para assegurar que a soja comprada é livre de desmatamento, além de uma garantia de independência nos processos de monitoramento, reporte e verificação dos fornecedores.

As respostas, acrescentam os varejistas, vão determinar as decisões futuras dos importadores sobre a origem da soja.

Vale lembrar que o estopim para a assinatura da moratória da soja, em 2006, foi a forte pressão de varejistas e fabricantes de alimentos europeus, que ameaçaram interromper as compras do Brasil após um relatório do Greenpeace ligar as tradings à compra de soja produzida em áreas desmatadas na Amazônia.

Apesar da contribuição para a preservação do bioma, o pacto foi alvo de intensa pressão por parte de grupos de produtores durante anos. No ano passado, ela se intensificou com a judicialização do tema, culminando na suspensão do acordo no início deste ano.