Fazenda Pantaneira Sustentável dissemina protocolo de boas práticas para pecuária no Pantanal
Fazenda Pantaneira Sustentável dissemina protocolo de boas práticas para pecuária no Pantanal | Crédito: Divulgação

A pecuária no Pantanal historicamente se ressentiu de falta da assistência que o setor usufrui em outros biomas, como consequência do clima, com a peculiar alternância entre secas e enchentes, e da fraca infraestrutura logística.

Para mudar esse cenário, a Embrapa Pantanal capitaneou a criação de um protocolo de boas práticas para a pecuária local, a Fazenda Pantaneira Sustentável (FPS).

A iniciativa celebra dez anos em 2026, e exibiu na COP30 seus principais resultados até aqui. Sob o protocolo, o peso médio dos bezerros cresceu 20%; o índice de prenhez subiu de 28% para 65%; a idade do primeiro parto caiu de 36 meses para 30 meses; a mortalidade antes do desmame diminuiu 12%; e a taxa de animais por hectare aumentou de 1,05 para 1,12.

Além disso, a plataforma forneceu dados que embasaram a atualização da lei estadual mato-grossense do Pantanal (8.830/2008), que regula os métodos produtivos locais.

“No Pantanal, pela pecuária peculiar, muito extensiva e com poucas intervenções no ambiente, não é possível replicar metodologias de outros biomas”, explica Thiago Coppola, chefe adjunto de Transferência de Tecnologias da Embrapa Pantanal.

Suzana Salis, chefe geral da Embrapa Pantanal, complementa: “Na cadeia leiteira, um técnico atende 30 fazendas por mês, contra cinco no Pantanal. O deslocamento é mais difícil, com períodos em que só se acessa de avião. E, diferente da Amazônia, onde as políticas de proteção muitas vezes impactam territórios que já são públicos, no Pantanal 93% da área é privada, dividida em 7,5 mil fazendas. Não é simples”.

A base do projeto é o tripé ambiental, econômico e sociocultural. A meta é promover melhorias nas três frentes, aliando produtividade, sustentabilidade e proteção das tradições na região, um dos berços de cria e recria no País.

Salis detalha que a FPS ainda não inclui uma medição das emissões de carbono. Mas as práticas que recomenda, como o manejo de pastagens, evitam o desmatamento e estimulam a incorporação de carbono no solo.

Para a chefe geral, a iniciativa pode estimular remunerações por preservação de reserva legal — um dos pleitos mais reiterados do agro.

Meta: 1 milhão de hectares

A FPS foi lançada oficialmente em 2016 sob um modelo de inovação aberta e embarcando entidades parceiras.

Participam mais duas unidades da Embrapa, a Agricultura Digital e a Pecuária Sudeste. E, no Mato Grosso, onde o projeto ganhou tração primeiro, são parceiros o Senar-MT, o Sistema Famato e o Imea (Instituto Mato Grosso de Economia Aplicada), além dos sindicatos rurais e da Acrimat (Associação dos Criadores de Mato Grosso).

No início, eram 15 fazendas. Hoje, são 84 propriedades, totalizando 460 mil hectares e cerca de 100 mil cabeças de gado — ainda pouco em um universo de estimados 3,8 milhões de bovinos na região.

A iniciativa aproveita a efeméride para renovar as ambições. A meta é dobrar de tamanho até abril, superando 160 fazendas e 1 milhão de hectares.

Fazenda Pantaneira Sustentável dissemina protocolo de boas práticas para pecuária no Pantanal

Hoje concentrado no Mato Grosso, o programa anunciou na COP30 um financiamento do The Pew Charitable Trust no valor de US$ 1 milhão, em um prazo de dois anos, para o fortalecimento da pecuária sustentável no Pantanal.

Os recursos serão usados para engajar players do lado do financiamento, dobrar o número de técnicos, dos atuais dez para 20, e melhorar a comunicação.

O protocolo também está evoluindo para o melhoramento genético de pastagens. “No Pantanal, algumas pastagens não servem de alimento — as chamadas ‘grosseiras’. A Embrapa orienta a substituição por outras opções a partir da análise do índice nutricional”, diz Coppola.

Outro objetivo é crescer no Mato Grosso do Sul — que concentra a maior parte (65%) do bioma. São oito propriedades no Estado, e a ideia é no curto prazo ampliar para 25.

“No fim do mês, estamos indo ao MS mobilizar mais fazendas. Tem muitos produtores vendo resultados nos vizinhos e sinalizando interesse”, diz Coppola.

Fazenda Pantaneira Sustentável dissemina protocolo de boas práticas para pecuária no Pantanal

Para isso, a FPS terá a parceria da Pontes Pantaneiras, uma coalizão que reúne pesquisadores, ONGs, setor privado e comunidades com foco no bioma.

Além do Pew, integram o funding o Instituto de Pesquisas Ecológicas, a Universidade College London e a Smithsonian Institution. A presença das entidades estrangeiras se explica, segundo Coppola, pela demanda crescente por produtos sustentáveis — como nas exigências da lei europeia antidesmatamento, a EUDR, que devem se alastrar para outros grandes importadores, como a China.

No futuro, ele imagina que o protocolo possa incluir uma certificação. “A ideia é que o produtor vá melhorando seus processos até chegar a um patamar certificado, com o objetivo de obter melhores preços”, diz Coppola.

A criação desse selo deve acontecer no primeiro semestre, e a certificação deve rodar ainda neste ano, ele explica: “Uma certificação pode garantir o modelo de exportação e fomentar pagamentos por serviços ambientais para manter o Pantanal de pé”.

Indicadores

A Fazenda Pantaneira Sustentável teve origem em 2004 por iniciativa da pesquisadora Sandra Santos, que desenvolveu o embrião da plataforma. O objetivo era criar um método baseado em indicadores para auxiliar o produtor na tomada de decisão.

Após testes na Fazenda Nhumirim, em Corumbá (MS), a Embrapa Pantanal fechou os indicadores do protocolo em 2012. A partir daí, foram mais dois anos de ajuste até o registro do software, em 2016.

Os técnicos geram notas por quesito e um diagnóstico geral da propriedade. São 56 indicadores, dos quais 11 derivam de imagens de satélite, 19 são verificados em campo, e 26 advêm de respostas a questionários.

Na parte ambiental, a FPS avalia atributos como a capacidade de regeneração das áreas florestadas ou o quanto a legislação permite abrir mais espaços para cultivo.

Na econômica, observa o nível de degradação das pastagens, cultivadas ou nativas, e o bem-estar dos animais. E, na parte sociocultural, mensura o quanto as tradições locais estão sendo preservadas.

A análise dos dados é feita com uso de inteligência artificial. A plataforma devolve as orientações já com o custo de implementação e o benefício almejado — por exemplo, criar um corredor ecológico, ou instalar tanques para hidratação dos animais, o que também beneficia a fauna nativa.

Mas Coppola explica que o produtor não é obrigado a aplicar as sugestões. “A decisão final é dele.”

No médio prazo, a ideia é exportar a FPS para o resto do País — se uma tecnologia sobreviveu às dificuldades do Pantanal, brinca Coppola, então ela pode ser transposta para qualquer outra região.