
O estrago se faz rápido, mas se corrige lentamente. Mesmo com o fim do tarifaço de Donald Trump sobre o café brasileiro, as exportações para os Estados Unidos ainda não conseguiram retomar o ritmo em dezembro, de acordo com dados divulgados na segunda-feira pelo Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil).
Na verdade, as vendas aos americanos devem demorar para retomar o patamar anterior à guerra comercial, disse Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, em entrevista a jornalistas.
Segundo ele, os principais importadores americanos não só deixaram de fazer novos contratos, como também cancelaram compras acertadas anteriormente — as chamadas operações de “washout”.
“Por isso, não vimos recuperação ainda em dezembro e provavelmente não veremos em janeiro. Ainda está muito em cima da retirada da tarifa; os contratos cancelados até foram retomados, mas com embarques mais futuros”, disse Ferreira.
Nas contas dele, a retomada completa pode se consolidar apenas no segundo semestre. “Essa recuperação virá lá na frente. Talvez nem nessa safra, mas na próxima”, disse o dirigente em alusão à safra 2026/27, que começa a ser colhida em maio.
No auge da disputa comercial (e política) deflagrada por Trump contra o Brasil, o café chegou a sofrer com uma tarifa de 50%, inviabilizando os embarques do produto brasileiro aos Estados Unidos. A tarifa mais dura contra o Brasil durou entre agosto e novembro, quando foi retirada após negociações e um aparente armistício com o governo Lula.
Os prejuízos do tarifaço
Enquanto a tarifa mais alta esteve em vigor, os exportadores brasileiros de café perderam quase meio bilhão de dólares (mais de R$ 2,5 bilhões) em vendas não realizadas, segundo o presidente do Cecafé.
Em uma conta com base na média de preço da saca de café, Ferreira conclui que o Brasil deixou de exportar o equivalente a US$ 491,84 milhões naquele momento mais agudo.
Ao todo, foram US$ 441,65 milhões perdidos em vendas não realizadas de café arábica e US$ 50,19 em exportações canceladas do solúvel — que permaneceu sujeito à taxação de 50%, e segue na pauta de negociações do Cecafé e do governo federal.
No conilon, a entidade estima que o Brasil não tenha tido prejuízo, pois a produção do País já não era competitiva frente a outras origens, como Vietnã e Indonésia.
Apesar dos prejuízos nos Estados Unidos, o Cecafé resiste à ideia de que o Brasil perdeu espaço no mercado global graças ao tarifaço. “Nós não perdemos mercados, os outros é que ganharam, porque nossa safra foi menor. Quando o Brasil tem safra boa, ele se impõe e antecipa as vendas”, argumentou Ferreira.
Eduardo Heron, diretor-técnico do Cecafé, insistiu na tese. “A ideia de que o Brasil perdeu mercado não se sustenta. Em agosto, o País tinha 29% das vendas, contra 14% do Vietnã e 11% da Colômbia. E, em novembro, tinha 31%, contra 18% do Vietnã e 12% da Colômbia. Foi mais uma coisa pontual do que uma substituição”.
Na apresentação dos números de dezembro e de 2025, o Cecafé destacou ainda que o País conseguiu vender bons volumes a outros tradicionais compradores, como a Alemanha e o Japão, além de acessar novos mercados, como Turquia e China.
“A busca por negócios em outras direções aconteceu, e nos tornamos mais ágeis em entregar. A Alemanha manteve a tradição de comprar muito do Brasil, com primazia para o arábica, assim como o Japão”, disse Ferreira.
Segundo ele, o Cecafé ainda tenta desbravar novas fronteiras, mas isso está difícil em um cenário de “preocupações geopolíticas maiores do que as tarifárias”, em uma menção velada à ameaça dos EUA de anexarem a Groenlândia.