Semente de soja; Boa Safra

A crise das sementeiras levou o Itaú BBA a revisar as suas expectativas para a Boa Safra, rebaixando a sua recomendação para as ações da companhia de “compra” para “neutro” e cortando o preço-alvo de R$ 15 para R$ 10. Mesmo assim, o papel continua apresentando um potencial de valorização de 18%.

Não é que a tese tenha azedado. Os analistas ainda acreditam na empresa (e no setor), mas a tempestade perfeita em que o segmento se encontra, com preços baixos e estoques abarrotados, alterou a visão de curto prazo para as ações.

“Nós reconhecemos o apetite limitado do mercado para exposição a uma tese com poucos gatilhos de curto prazo, e esperamos que a sazonalidade da empresa faça os investidores ficarem receosos até o terceiro trimestre, o mais relevante para o desempenho anual”, resumiram os analistas Gustavo Troyano, Bruno Tomazetto e Ryu Matsuyama.

Adaptando as estimativas para esse momento mais delicado, os analistas cortaram a estimativa de receita para o ano de 2025 em 13% em relação à projeção anterior (somando agora R$ 2,4 bilhões), o que se refletiu em um corte de 36% no Ebitda ajustado e de 43% no lucro líquido, este para R$ 111 milhões.

Para 2026 e 2027, o cenário não ficou muito diferente, com um corte de 54,9% para o lucro líquido deste ano (nas projeções, deve somar R$ 122 milhões) e de 52% no ano que vem, totalizando, agora, R$ 172 milhões.

Os cortes refletem mudanças estruturais vislumbradas pelos analistas. Antes, havia a percepção de que a Boa Safra passaria por um aumento gradual e contínuo de capacidade, passando de 280 mil big bags em 2025 para 360 mil big bags em 2027. Agora, eles projetam que os 280 mil big bags sejam mantidos por um período maior.

“Ainda acreditamos que a companhia chegue em 360 mil big bags em algum momento, mas vai levar mais tempo do que inicialmente prevíamos”, escrevem.

Desse corte, derivaram todas as dinâmicas de rentabilidade projetada para a companhia. Com um cenário macro ainda desafiador para os preços da soja, eles levaram em consideração um mix de TSI (genética) mais conservador em curto prazo.

“Levando em consideração esse cenário, se a companhia tiver um foco em execução, a recuperação do Ebitda para os níveis de 2023 pode vir somente em 2028”, pontuam os analistas.

Os pontos-chave para essa melhora incluem o ramp-up das marcas da Boa Safra com mais margem, além de ganhos de escala, que vão permitir que as despesas gerais e administrativas representem uma porção menor da receita.

Hoje, o SG&A (a sigla para essas despesas, no jargão de mercado) representa 6%, tomando como base as projeções para 2025, ante uma média histórica de 3%.  

Da porta para fora, a companhia conseguiu aumentar o seu market share no mercado, mesmo no cenário mais desafiador de preços, passando de 8% para 10%, mesmo com a queda de margem.

E o milho?

“Daqui para frente, a diversificação permanece uma prioridade-chave para a empresa, com as sementes de milho surgindo como uma via importante de crescimento por meio de parcerias e produção própria, além de outras culturas e potenciais fusões e aquisições”, escreveram os analistas, a partir de conversas com a alta gestão da empresa.

De acordo com o relatório, apesar de essa linha de receita ainda ser modesta no balanço da companhia (todas as demais culturas, somadas, equivalem a 15% da receita), a BestWay, subsidiária da Boa Safra focada nesse mercado, já tem um alto volume de encomendas para o ano, reflexo de negociações com multinacionais — um processo que pode destravar a escala para essa vertical.

A produção proprietária de sementes de milho está progredindo gradualmente e deve trazer contribuições positivas de margem em 2026.

“Ainda que a Boa Safra tenha optado por crescimento orgânico em vez de um M&A transformador no curto prazo, o ambiente atual de mercado oferece oportunidades atrativas de aquisição que poderiam acelerar a expansão no futuro”, escrevem os analistas.

***

Nesta segunda-feira, um dia após a divulgação do relatório, as ações da Boa Safra fecharam em queda de 3,75%, cotadas a R$ 8,46. Nesta terça, operam perto da estabilidade. Em um ano, os papéis caem 10%. A empresa vale R$ 1,2 bilhão na Bolsa.