Colheita de soja

Mesmo em um cenário de severa restrição financeira no agro, com crédito escasso e disparada das recuperações judiciais, o Brasil vai colher uma safra de soja recorde na temporada 2025/26, segundo a Agroconsult.

A consultoria apresentou nesta quinta-feira (15) sua primeira estimativa para o próximo período, antes de sua turnê de campo Rally da Safra, durante a qual deve visitar mais de 2,2 mil lavouras em 14 Estados.

Se as previsões se confirmarem, o País deve ter os maiores números de sua história em termos de volume, área plantada e produtividade da soja. Nas contas da Agroconsult, a produtividade média da soja vai crescer 3,6%, para 62,3 sacos por hectare.

“Essa safra começa de um jeito diferente. Não teremos recordes nos Estados, mas caminhamos para um recorde no Brasil”, disse André Debastiani, coordenador geral do Rally da Safra.

Colaboram para as estimativas a baixa base de comparação em 2024/25 em alguns Estados, como o Rio Grande do Sul, que teve quebra na safra passada, e os bons resultados esperados no Centro-Oeste, com destaque para o Mato Grosso do Sul.

De acordo com Debastiani, a expectativa positiva reflete a resiliência da agricultura brasileira. “As razões para isso são os grupos bem estruturados, que olham para o longo prazo; a lógica de preço de terra e o quanto ela valoriza quando a pastagem vira lavoura; e as diferenças de momentos econômicos entre os produtores”, ele detalha.

Segundo ele, o produtor tem mantido a disposição de investir. “O comportamento em fertilizantes, sementes e insumos se mostra parecido com o ano passado, talvez com um pouco mais de atraso, mas sem redução. Ele está buscando uma produtividade mais alta.”

A produtividade regional

Nos Estados, o desempenho deve oscilar. No Rio Grande do Sul, a recuperação frente à problemática safra passada vai resultar em uma produtividade de 52 sacas por hectare, o melhor desempenho em muito tempo.

“É um nível ainda baixo, mas estamos falando de dez sacas a mais por hectare do que na média dos últimos cinco anos”, situa Debastiani.

Outro destaque deve ser o Mato Grosso do Sul, com produtividade de 61,5 sacas por hectare, um aumento de 19,4% frente às 51,5 sacas por hectare em 2024/25. “Aqui, uma curiosidade: o sul do Estado teve desempenho melhor que o norte, contrariando a tendência histórica”, disse Debastiani.

No Paraná, a consultoria espera outro marco histórico, em 65 sacos por hectare.

No Mato Grosso, a preocupação é com as zonas norte e oeste do Estado, que tiveram um plantio antecipado, mas depois sofreram com o clima seco.

“As primeiras áreas colhidas nessas regiões estão mostrando potencial mais baixo”, diz Debastiani. Ainda assim, o Estado deve colher 65 sacas por hectare — um pouco abaixo das 66,5 sacas da safra passada, mas ainda acima da média dos últimos cinco anos.

Em Goiás, a expectativa é de uma produtividade de 66 sacas por hectare, abaixo das 68 registradas em 2024/25. A Bahia também deve ter leve queda, de 68 sacas por hectare na última safra para 66 nesta.

Em São Paulo, o início da safra sinaliza uma produtividade igual à do ano passado, em 62 sacas por hectare, enquanto Minas Gerais deve ver uma leve redução, de 66,5 sacos por hectare na safra passada para 66 nesta.

Mais área e mais produção

A consultoria espera um aumento de 2,1% na área plantada, equivalente a 980 mil hectares. Embora abaixo do crescimento médio da última década, de 1,7 milhão de hectares ao ano, a alta projetada fará a soja chegar a um recorde de 48,8 milhões de hectares.

Segundo Debastiani, no Mato Grosso, esse crescimento se dará por meio de conversões de áreas de pastagem, sem substituições de culturas. Já no Mapito (região formada por Maranhão, Piauí e Tocantins) e na Bahia, parte das expansões devem ser fruto de aberturas de novas áreas.

Nas contas da Agroconsult, todas as regiões devem ter crescimento, com destaque para a Bahia, onde a área deve crescer 4,3%, e o Mapito (zona formada por partes do Maranhão, Piauí e Tocantins), onde a área deve aumentar 4,1%.

A exceção é o Rio Grande do Sul, onde a lavoura deve diminuir em 42 mil hectares — oscilação pequena em um universo de 6,7 milhões de hectares de soja no Estado.

Com isso, o Brasil deverá ter em 2025/26 um aumento de 6,4% no volume de soja, que deve saltar para um recorde de 182,2 milhões de toneladas, contra 171,1 milhões de toneladas na safra anterior.

O maior aumento virá da região Sul, cuja recuperação representará uma produção 6,5 milhões de toneladas maior do que na safra passada.

A estimativa contradiz o pessimismo gerado por plantios postergados. “Goiás e Minas Gerais tiveram os plantios mais atrasados da história; o produtor ficou esperando as condições ideais. Tocantins e Maranhão também tiveram atrasos, mas menores.”

Após uma regularização do clima em novembro e dezembro, as projeções foram revisadas para cima, diz Debastiani.

Na outra ponta, alguns Estados tiveram os plantios mais adiantados da história, notadamente o Paraná e a porção sul do Mato Grosso do Sul.

“Já no Mato Grosso, as regiões médio-norte e oeste tiveram boas condições, enquanto no sudeste e no leste do Estado o plantio atrasou. Até aqui, o clima no Estado teve comportamento bastante irregular.”

Debastiani pontuou que essa irregularidade gerou níveis altos de replantio — embora não tão altos quanto em 2023 e 2024. “A Bahia replantou 15%, o Mato Grosso, 9%, Maranhão, 10%, e Tocantins, 5%, sempre por previsões de chuvas que não se concretizaram.”

Já em Goiás, houve atraso, mas depois o clima compensou, e resta saber se haverá prejuízo à janela do milho de segunda safra.

Essa dúvida sobre eventuais danos à safrinha, seja de algodão ou de milho, se estende a todo o País, diz Debastiani.

“A maior parte da decisão já foi tomada, mas o produtor sempre deixa uma parcela para decidir no último instante. Vamos monitorar de perto, porque a segunda safra tem importância cada vez maior na composição da renda do produtor”.