
As salvaguardas aplicadas pela China para limitar as importações de carne bovina colocam os frigoríficos brasileiros diante de um raro teste de maturidade comercial (e estratégica).
Apesar da concentração das vendas ao país asiático expor uma fragilidade dos exportadores, o apertadíssimo balanço global de oferta e demanda de carne deixou o Brasil em uma posição privilegiada para reagir.
Para lidar com o desafio imposto por Pequim, os exportadores terão de calibrar a distribuição da cota anual de uma forma em que consigam sensibilizar os chineses no médio prazo ao mesmo tempo em que defendem a sustentabilidade da cadeia produtiva.
Os frigoríficos precisam evitar comportamentos intempestivos que baguncem os preços básicos da pecuária, disse uma fonte que acompanha as conversas entre os exportadores.
É justamente por isso que uma corrida destrambelhada para cumprir a cota o mais rápido possível seria o pior dos mundos. Um movimento como esse provocaria uma disparada do boi gordo em um primeiro momento, mas seria seguido por um vale na etapa subsequente.
“Não queremos ganhar muito em pouco tempo, destruindo o fornecedor”, resumiu um exportador.
Embora inteligente, essa não é uma estratégia fácil de implementar, observa Maurício Nogueira, sócio-fundador da consultoria Athenagro. Pelo contrário, avaliou.
Com as cotas aplicadas, os preços da carne para exportação aos chineses já subiram mais de 15%, para mais de US$ 6 mil por tonelada, o que poderia estimular os frigoríficos a abrirem uma corrida para cumprir a cota.
Para a estratégia dar certo, paciência será um ativo fundamental, o que significa admitir que os resultados serão mesmo piores por enquanto. “Nos últimos anos, foram abertos vários mercados que ajudam a minimizar, mas não existem duas Chinas no mundo”, acrescentou outro exportador.
Nas contas de João Figueiredo, analista de pecuária da consultoria Datagro, as salvaguardas chinesas criaram a necessidade de redirecionar algo entre 400 mil e 600 mil toneladas de carne para outros destinos.
“Estamos falando de um impacto negativo equivalente a 3 milhões de cabeças de gado. Dá um banho de água fria, mas o Brasil nunca esteve tão bem-posicionado”, disse o analista.
O maior trunfo brasileiro é a escassez global de carne bovina, que ocorre num momento em que o País possui o gado mais competitivo do mundo.
Nesse cenário, uma das principais oportunidades para os frigoríficos brasileiros está no mercado dos Estados Unidos, que foi reaberto aos exportadores do País após alguns meses de tarifaço.
Ainda que exista uma diferença de mix — os americanos importam do Brasil uma carne com menos gordura, para ser usada na produção de carne moída e hambúrguer —, parte da oferta que seria destinada aos chineses deve acabar nos EUA.
Vizinhos como Argentina e Uruguai, que foram agraciados com uma cota mais generosas pelos chineses, provavelmente vão comprar mais carne do Brasil para destinar uma fatia maior da produção interna ao país asiático.
Com isso, a restrição chinesa deixou uma oportunidade de arbitragem para players com operações em diversos países da América do Sul, casos de companhias brasileiras como Minerva Foods e MBRF.
Ao criar as cotas, Pequim vai encarecer a carne no mercado doméstico, estimulando o direcionamento de carne argentina e uruguaia para os chineses, reduzindo o suprimento aos americanos. Nesse processo, o Brasil terá ainda mais espaço para exportar carne aos Estados Unidos.
“Se existe uma coisa para se respeitar, é a relação entre oferta e demanda. O restante é ruído. No mundo, está faltando carne. Como vai acomodar? Por arbitragem”, argumentou Michel Torteli, fundador da FinPec.
Com o tempo, até os chineses poderão sentir falta do produto brasileiro. Se os frigoríficos distribuírem a cota de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina ao longo de doze meses, comprarão menos do que sua demanda efetiva e dificilmente a produção doméstica dará conta.
No ano passado, o Brasil exportou quase 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China, respondendo por mais de 50% das compras do país asiático. Ainda que parte desse volume fosse uma antecipação de demanda dos importadores que já esperavam pelas salvaguardas, o fato é que os chineses consomem mais do que se propuseram a comprar.
Uma aposta é que, no médio prazo, os chineses se darão conta da necessidade de um volume adicional do Brasil. Nesse cenário, a cota poderia ser flexibilizada, permitindo ao País usar a cota de outros países que não conseguiram utilizá-la, uma ideia que o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, já chegou a sinalizar.
“Se chegar em setembro e o chinês ver que outros países não cumpriram a cota, libera mais para o Brasil. Neste momento, é preciso ter cautela e serenidade. O chinês está estocado”, acrescentou Figueiredo, analista da Datagro.
A julgar pelos episódios críticos mais recentes, os frigoríficos aprenderam a jogar com paciência. Foi assim com o tarifaço de Donald Trump e também com a disputa com o Carrefour, quando arrancaram um pedido de desculpas do CEO global, Alexandre Bompard.