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Contrariando a maré baixa de crédito para o agronegócio, um FIDC inusitado quer testar as águas de um novo formato de financiamento para o setor. Trata-se de um fundo de recebíveis em dólar, estruturado pela Exa Capital para a AgriConnection.

“É o primeiro fundo em dólar para financiar o elo da agroindústria”, afirmou Fábio Fanti, co-fundador da Exa e gestor da área de agronegócio da casa, ao The AgriBiz.

Com um patrimônio líquido de US$ 20 milhões (ou R$ 120 milhões, já que a oferta tem de ser registrada em reais por questões regulatórias), o fundo levantou dinheiro principalmente com o Rabobank, que subscreveu a cota sênior do fundo. Na subordinada, estão a própria Agriconnection e a Exa Capital.

Do lado do ativo, o veículo se vale das vendas em dólar feitas pela Agriconnection aos clientes. Os tomadores de crédito junto à fabricante de insumos (produtores, distribuidores etc) emitem uma CPR em favor do veículo de investimentos e, na data de vencimento, pagam diretamente ao fundo, considerando a PTAX daquela data determinada. Não há hedge da variação cambial dentro do fundo, que almeja uma rentabilidade de 7% ao ano.  

“A Agriconnection tem uma carteira de clientes com qualidade de crédito muito boa e estamos trabalhando com a melhor parte dela. Nesses recebíveis, temos grandes grupos produtores de algodão e soja, cooperativas e distribuidores consolidados”, explica Fanti.

Dentro da fabricante de insumos, esse ainda é um projeto piloto. Hoje, 40% das vendas da Agriconnection são feitas em dólar — com o fundo abarcando apenas 6% desse total.

“Esses recebíveis ficam parados na nossa mão. Não conseguimos fazê-los girar porque no Brasil não há uma estrutura definida para dólar. Nós resolvemos inovar nesse quesito, num movimento que deve abrir a porta para outras empresas também”, detalha Flávio Mata, sócio-fundador e CEO da Agriconnection.

O fundo tem um prazo de três anos, começando a rodar agora em janeiro. A expectativa é conseguir fazer de uma a duas safras cheias, com foco em azeitar controles e processos, além de acompanhar o desempenho da carteira — para crescer o fundo a partir daí.

“Do lado da Agriconnection, sabemos que hoje eles já possuem capacidade e qualidade de carteira de clientes suficiente para triplicarmos o tamanho do fundo”, explica Fanti.

Além de crescer na fabricante de insumos, a gestora quer levar a tese a mais players. Entre os principais desafios, está tanto a falta de estrutura de players tradicionais do setor financeiro para analisar esse tipo de estrutura quanto a burocracia envolvida nessa nova proposta.

“Foram 15 meses entre a assinatura do mandato e a liquidação do fundo. Tivemos que construir tudo do zero, desde regulamento, com todas as formas de marcação, precificação, até o acordo operacional e os lastros”, explica Fanti.

Agora, a Exa Capital está em conversas com outros players no setor agroindustrial para replicar a tese. “Entendemos que esse fundo pode ser utilizado para vários players, como vendedores de máquinas agrícolas, de sistemas de irrigação, sementes, fertilizantes, peças e serviços e por aí vai”, anima-se Fanti.

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O escritório FLH Advogados foi o assessor legal da estruturação do fundo. O coordenador líder da oferta foi a Kea Capital, de Marcos Andia, outro veterano no agronegócio.