
No primeiro pregão depois de a China estabelecer limites para as importações de carne bovina, as ações dos frigoríficos lideram as baixas na bolsa brasileira. Os papéis da Minerva caíam mais de 6% por volta das 14h, enquanto os da MBRF perdiam quase 5%. As ações da JBS também apresentam queda na NYSE, com uma baixa de quase 2%.
A queda reflete a preocupação dos investidores com a redução no volume de exportações à China, principal cliente dos frigoríficos brasileiros no exterior.
No Brasil, as exportações representam 30% das vendas de carne bovina (cerca de 3 milhões de toneladas) com a China respondendo por mais da metade — um volume estimado entre 1,6 milhão e 1,7 milhão de toneladas para 2025.
Com as salvaguardas, o Brasil perde espaço no gigante asiático, com um teto de exportações de 1,1 milhão de toneladas. Envios fora da cota terão uma tarifa adicional de 55%, um percentual que inviabiliza as importações chinesas.
Nessa matemática, os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, do BTG Pactual, calculam que cerca de 5% da produção brasileira de carne terá de encontrar novos destinos.
A equipe de analistas da XP Investimentos chamou a atenção para o risco de uma corrida dos importadores para aproveitar a cota, potencialmente criando uma “ressaca” no mercado quando ela for preenchida.
“Segundo nossas verificações no mercado, os players brasileiros já negociaram cerca de 500 mil toneladas para 2026, criando um risco de ‘antecipação’. Os importadores chineses podem se apressar para esgotar a cota restante, provavelmente seguido por uma queda acentuada na demanda assim que a nova tarifa de 55% fora da cota entrar em vigor”, dizem Leonardo Alencar, Pedro Fonseca e Samuel Isaak em relatório.
Quem sofre mais
Numa foto das principais empresas do setor, os analistas Henrique Brustolin e Pedro Fontana, do Bradesco BBI, estimam que a Minerva gerou 15% da receita dos últimos doze meses a partir de envios à China (com as exportações do Brasil respondendo por 12%). Na JBS e na MBRF, as exportações à China correspondem de 3% a 4% do total da receita, respectivamente.
A presença diversificada de grandes frigoríficos na América Latina — caso de Minerva e MBRF — pode ajudar as empresas a remanejarem esses volumes ao longo do tempo, uma vez que também conseguirão aproveitar as cotas concedidas a outros países.
Nessa lógica, Argentina e Uruguai, por exemplo, importariam do Brasil para abastecer o mercado doméstico e aumentariam as exportações à China, explicou Lígia Pimentel, CEO da Agrifatto. Nas contas dela, o Brasil pode enviar 150 mil toneladas aos vizinhos sul-americanos.
A ajuda do ciclo pecuário
Outro fator que deve atenuar o impacto da medida chinesa para o Brasil é a esperada redução na oferta de gado para abate.
“As cotas devem aumentar 2% a cada ano nos próximos dois anos, coincidindo com um período em que nós esperamos os primeiros sinais de retenção de gado no Brasil. Dessa forma, o ‘excesso de oferta’ pode ser menos acentuado no médio prazo”, lembram os analistas do BTG.
O raciocínio é compartilhado pelos analistas do Bradesco BBI. Eles apontam pelo menos três fatores que podem amenizar os efeitos das salvaguardas. Um deles é que a produção brasileira de carne deve cair 5% em 2026, ou 460 mil toneladas a menos do que em 2025 — o que ajuda a minimizar o impacto das salvaguardas de antemão.
O Bradesco BBI lembra também que o prêmio pago pelos importadores chineses não é mais o mesmo, o que pode tornar a substituição desse destino menos traumática.
“Embora a China continue sendo fundamental para a monetização de cortes de menor valor agregado e para a absorção de grandes volumes, o acesso mais amplo concedido aos frigoríficos brasileiros nos últimos anos diluiu esse impacto”, escreveram os analistas.
O Brasil abriu recentemente mercados como Vietnã, Indonésia e Filipinas, além de ter avançado nas negociações com o Japão. Por enquanto, são mercados pequenos, mas que podem ganhar mais espaço ao longo dos próximos anos, num movimento que também ajudaria a reduzir a dependência da China.
Ainda sob essa ótica mais otimista, está o fim do tarifaço de Donald Trump. Assumindo que o volume de envios aos Estados Unidos se mantenha nos mesmos níveis pré-tarifas, isso pode significar, de forma conservadora, uma adição de 60 mil toneladas em exportações em 2026, notam os analistas do Bradesco BBI.
“A implementação das salvaguardas é claramente negativa para o Brasil, e redirecionar esses volumes não é tarefa simples. Mas dada a incerteza que a investigação das salvaguardas gerou, nós acreditamos que o resultado foi menos negativo do que se previa”, escreveram.