
A Argentina, maior exportadora de farelo de soja do mundo, deve se fortalecer no mercado internacional após a recente redução nos impostos de exportação, as chamadas retenciones, impondo uma competição mais acirrada com o Brasil e os Estados Unidos num momento de excesso de oferta da commodity usada na ração animal.
O presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou no último sábado uma redução nas alíquotas de exportação em caráter permanente, num aceno aos produtores agrícolas que apoiaram o presidente amplamente durante a campanha eleitoral devido às suas promessas de livre comércio.
As tarifas para farelo e óleo de soja vão cair de 31% para 24,5%. Para soja em grão, a alíquota passará de 33% para 26% e, para o milho, a redução será de 12% para 9,5%. A taxação sobre as exportações de carne bovina passará de 6,5% para 5%.
Na prática, Milei está retomando as tarifas praticadas durante o primeiro semestre deste ano — elas já haviam sido reduzidas, mas voltaram a subir em julho. A diferença é que, agora, o caráter da medida é permanente.
“Essas reduções não serão revertidas enquanto eu estiver no poder. Extinguir as tarifas de exportação é uma obsessão da nossa administração”, disse o presidente ao anunciar as novas alíquotas durante uma feira agrícola no final de semana.
Apesar de ainda estar longe da isenção, a redução nas tarifas melhora as perspectivas para o plantio da próxima safra de grãos, que será plantada no segundo semestre, e devem colocar a Argentina numa posição mais favorável nas exportações de farelo de soja — o principal produto da pauta do país.
“A Argentina já era competitiva nas exportações de farelo e vai ficar mais ainda”, afirma Pedro Dejneka, sócio da MB Commodities em Chicago, que aponta os Estados Unidos como potencial perdedor de um fortalecimento dos argentinos. “É mais uma barreira que os exportadores americanos terão de ultrapassar.”
Estoques recordes
O fortalecimento da Argentina ocorre em um momento desafiador para os exportadores de farelo de soja. Estimulada pelo avanço da demanda por biodiesel, em razão dos programas de adoção de biocombustíveis em diferentes países, o processamento de soja está aumentando em diferentes produtores, resultando num excedente de farelo. No processamento, cerca de 70% da soja se transforma em farelo e 30% em óleo.
Os estoques finais de farelo de soja serão recordes na safra 225/26, estimados em 18,6 milhões de toneladas pelo USDA. E deverão continuar crescendo na esteira dos aumentos das misturas obrigatórias de biocombustíveis aos combustíveis fósseis no Brasil e nos Estados Unidos — países que respondem por quase 70% da produção de soja no mundo.
Só no caso do Brasil, a produção de farelo de soja deve crescer 31% nos próximos cinco anos, segundo estimativa da Veeries. Como o mercado interno não será capaz de absorver as 14 milhões de toneladas adicionais, será preciso exportar mais — agora num cenário mais competitivo.
“A Argentina já está retomando alguns mercados que eram cativos antes das quebras de safra dos últimos anos”, diz Fábio Meneghin, sócio da Veeries. “Aos poucos, os argentinos estão preenchendo o seu parque industrial e pegando uma onda nessa onda global de biocombustíveis.”
O aumento na produção global de farelo de soja levou os preços da commodity ao patamar mais baixo dos últimos cinco anos, lembra Meneghin. Nessas condições, ganha mercado quem tem o preço mais baixo. E, quando se fala em farelo de soja, é difícil concorrer com a Argentina.
As plantas de processamento da oleaginosa são bem próximas aos portos, numa logística totalmente favorável às exportações. Além disso, por sua tradição nas exportações de farelo, os argentinos se beneficiam de um longo relacionamento com os importadores. Mas, nos últimos anos, eles perderam um pouco de espaço não somente por causa dos impostos, mas principalmente por problemas climáticos, que derrubaram a oferta da matéria-prima. Essas circunstâncias abriram espaço para o Brasil aumentar os seus embarques.
O efeito da menor tarifa
Segundo Sol Arcidiacono, head da mesa de grãos da Hedgepoint na América Latina, a nova tarifa significa um ganho de competitividade de US$ 20 por tonelada de farelo de soja argentino, considerando o valor de exportação em torno de US$ 280 por tonelada.
A especialista, sediada em Rosário, na Argentina, estima um ganho entre US$ 25 e US$ 30 por tonelada de soja, mas, nesse caso, é difícil vencer o Brasil, beneficiado pela forte expansão das safras e melhora na infraestrutura, diz.
“Os produtores argentinos ainda estão significativamente em desvantagem em relação aos seus vizinhos Brasil e Uruguai, que não têm tarifas, mas é um passo na direção certa para apoiar uma produção estagnada há mais de dez anos”, afirma Arcidiacono.
No caso da soja, cultura que foi a mais afetada pelas retenciones e que agora apresenta a melhor rentabilidade, a redução nas alíquotas pode estimular um pequeno aumento da área plantada. “Antes dessa notícia, a produção de 50 milhões de toneladas parecia um teto. Hoje, com um clima favorável, podemos considerar esse número como piso”, diz.